CURTIDAS DIGITAIS E AMORES DE CARNE E OSSO

Quantas curtidas você precisa? Qual o seu texto mais compartilhado? O que representam esses likes?

As questões acima refletem a pobreza do mundo atual que tenta desenhar sua vida e seu valores através da profundidade das redes sociais, como se você fosse apenas o que publica, curte ou compartilha.

Hoje na tentativa de se comunicarem os indivíduos contemporâneos buscam freneticamente satisfação, mas que não represente um aprisionamento, afinal não se pode ter a certeza da escolha correta. Assim, muitos permitem-se viver as paixões e os amores ocasionais, mas sempre existiu a certeza do amor romântico assim, para Bauman (2004, p. 12) “todo amor luta para enterrar as fontes de sua precariedade e incerteza, mas, se obtém êxito, logo começa a se enfraquecer e definhar”. O amor contemporâneo, ou líquido, tende a definhar e acabar tão logo se concretize, não há espaços para o amor romântico, e quem tenta matar esse amor romântico?

Nesse momento, no universo digital, tudo que conhecemos está datado pelo processamento de dados, filtrados do caos e confusão por algoritmos e transformados em informação por meio da interação com nossas inferiores inteligências de humanos.

São dados gerados na Internet em todo tipo de interação, cada click, cada link aberto, cada e-mail, cada busca, cada post no Facebook, cada foto, cada “curtida”. Em cada um desses eventos, novos dados são gerados.

Logo, sabendo que são muitos os motivos que nos levam a entrar em redes sociais, solidão, reconhecimento, divulgação do trabalho profissional, não importa os motivos, mas sim o uso que você faz dela, e entre tantos a vaidade tem seu lugar de destaque, parecendo funcionar feito fermento, catalisando seus efeitos e resultados.

Se não tivéssemos vaidade, o que seria dos filtros e ajustes tecnológicos nas fotos? Tem gente que faz tanto ajuste que é humanamente impossível reconhecer o amigo ou conhecido. Fazemos parte das redes sociais, quase sempre por puro prazer, ainda que para alguns seja uma tortura, e quem disse que não há prazer na dor?

Por vezes ficamos distante delas, outras vezes entramos para registro e ficamos lá em silêncio, observando o filme que passa na nossa timeline, afinal o silêncio, nem sempre é consentimento, pode ser apenas proteção de tanto ruído.

Como disse o pesquisador Breton “O silêncio é uma forma de resistência. Somos um espírito que habita um corpo e não o contrário. E só com silêncio acessamos essa fonte espiritual que está em nós. O ruído da pós-verdade não nos deixa sair do fluxo incessante de estímulos, e cada vez nos atolamos mais.”

Em meio a celulares viciantes, que são lidos na rua, nas praças, nas filas e acredite, em carros em movimento por motoristas irresponsáveis, virou vício, estar de olho na tela, não importando a inconveniência do lugar e do horário.

Em meio a uma sociedade de fluxo informacional intenso e desmedido, reside na velocidade das redes sociais, dos aplicativos, parte da nossa inquietude, onde quem não curte, não responde ou não interage parece ser indiferente.

Criamos assim o conceito da indiferença digital, onde o tempo de resposta mudou para uma conveniência de aflitos, onde tudo nos deixa inquietos, uma inquietude prejudicial a saúde e as relações humanas.

Quem já não escutou um parente reclamar que não curtimos suas publicações? Como se a simples curtida fosse efemeramente um sinal de afeto ou concordância?

Logo, dentro desse padrão estético relacional, acabamos por compartilhar o que não lemos e assim aceitamos a sedução do conteúdo e da imagem como verdade, pois ela nos conforta no momento de angústia, nos iludindo com o que eu chamo de curtidas protocolares, o que antigamente poderia ser resumido na frase: “rir pra não perder o amigo”.

A tecnologia parece ter criado um fosso entre os que a dominam a mídia social com todos os seus recursos e os que não dominam (os novos excluídos), nessa nova ditadura das redes.

Percebe-se ademais, relativamente à anonimidade e correspondente interatividade na internet, que o processo de formação do laço de afinidade social sofre uma inversão, onde os interesses comuns são tidos como determinantes iniciais da interação e também sexo, idade, raça, aparência física não são automaticamente discerníveis, palpáveis, sendo que as interações não se dão diretamente entre “indivíduos”, mas entre imagens, projeções desencarnadas de um corpo físico, tidas como ideais a partir da ótica do visualizador, que evidentemente recebe tudo após o filtro das redes.

Na tentativa de se comunicarem os indivíduos contemporâneos buscam freneticamente satisfação, mas que não represente um aprisionamento, afinal, não se pode ter a certeza da escolha correta.

Com o tempo, mudaram as nossas fotos, a forma de contar a nossa história e a forma de vermos o tempo, a métrica do tempo continua sendo a mesma, afinal após 60 segundos chegamos a um minuto, mas a angústia da era digital faz com que a nossa relação com ele seja de absurda escravidão, logo cobramos tudo bem mais rápido e ficamos impacientes uns com os outros.

A solidariedade nunca esteve tão aos nossos dedos, num simples clicar de tela do celular, mas nunca estivemos tão distantes dos mais próximos, acreditar nela e na força dessa união é e sempre será atemporal.

Nesse mundo cada dia mais digital, ver e encontrar quem amamos será sempre uma necessidade e não importa o que as curtidas ou comentários das esdrúxulas redes sociais digam, é preciso querer mais do que um post ou uma fotografia.
Pode o tempo passar, podem as formas de se ver e se encontrar mudarem, mas o carinho sempre encontra um jeito especial, franco e próprio de ser, seja dando liberdade que encontre no respeito mútuo o seu desenho. A diferença sempre será um diálogo, seja ele analógico ou digital, onde a opressão não tem lugar, apenas o carinho e o respeito.

No fundo entre idas e vindas, entre tantas postagens e redes sociais procuramos nelas um espaço de paz, nessa que é a nossa maior carência, a paz de espírito.

E é óbvio, que não importa em qual profundidade o estado de espírito nos jogue, desprezados, distantes, injustiçados ou incompreendidos pela ditadura dos estereótipos digitais, te ver analogicamente vai ser sempre um sopro de busca pelo belo e pela fantasia.

É inegável que a era digital transpôs barreiras, facilitando a aproximação e a comunicação entre as pessoas. As inovações tecnológicas fazem com que se tenha que rever conceitos que anteriormente eram tidos como algo praticamente imutáveis. Importante destacar novamente que, ao mesmo tempo que aproximam, as tecnologias podem distanciar as pessoas. Celulares não podem ser a prisões, e os outros não se resumem ao que postam, publicam ou compartilham.

Por trás de cada publicação tem um ser humano, com sua história de vida, de sofrimento e de alegrias.

Um ser de carne osso onde pulsa um coração, alegre ou sofrido, mas acima de tudo humano.

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