CRIPTOS, OURO DE TOLOS?

Nessa semana durante uma conferência climática, o bilionário e fundador da Microsoft, Bill Gates, criticou as criptomoedas e NFTs. Ele afirmou que os ativos são “100% baseados na teoria do maior tolo”. Para ele, o setor faz parte da ideia de que os investidores às vezes podem ganhar dinheiro comprando ativos supervalorizados se esses ativos puderem ser vendidos a outra pessoa a um preço mais alto. Os ativos estão vivendo uma sequência de desvalorização nos últimos meses.

“Obviamente, imagens digitais caras de macacos vão melhorar imensamente o mundo, e isso é incrível”, disse Gates com sarcasmo. “Estou acostumado a classes de ativos como uma fazenda onde eles têm produção ou uma empresa onde eles fabricam produtos”, completou.

No momento em que os criptoativos derretem por uma série de motivos, as declarações de Gates, certas ou erradas merecem no mínimo uma reflexão, afinal investimentos em criptoativos, tem movido milhões de brasileiros, que estão colocando suas reservas nesses ativos.

Uma pesquisa da FGV mostra que o investidor brasileiro ainda é conservador e aloca capital principalmente na poupança (37,5%) ou em títulos públicos e renda fixa (21%). Ainda assim, o País se destaca no investimento em criptomoedas, classe de ativos com um nível de risco ainda maior do que a Bolsa de Valores.

Segundo um novo relatório da Fundação Getúlio Vargas (FGV) que compara o apetite para risco dos investidores do Brasil, da França e do Reino Unido, 14,5% dos investidores brasileiros afirmam investir em criptoativos. O porcentual é quase cinco vezes maior do que na França (3%) e nove vezes superior ao observado entre os ingleses (1,5%). A pesquisa ouviu 595 pessoas, com divisão proporcional entre as três nações.

A proporção de brasileiros que investem em criptoativos é pouco inferior ao porcentual que afirma investir em renda variável tradicional (16,1%), o que inclui Bolsa e fundos de investimento em ações. Entre os franceses, 12,6% dizem investir nesse segmento, enquanto o apetite entre os ingleses é maior, de 17,5%, segundo o relatório publicado no Estadão.

Para alguns, o fato da Inglaterra ter um mercado de ações bastante desenvolvido, enquanto França e Brasil são mercados pequenos, e é essa distância em maturidade das economias explica que explicaria a menor adesão de brasileiros e franceses à Bolsa.

A procura por resultados rápidos, daqueles que acreditam em milagres nas finanças poderia ser o tônico que movem esses milhões de brasileiros ao investimento de elevado risco nas criptomoedas.

Pois bem, o relatório da FGV deixa claro essa perspectiva mais imediatista do investidor brasileiro, onde cerca de 76% dos participantes do Brasil afirmaram investir visando curto ou médio prazos, contra 45,5% dos franceses e 64,5% dos ingleses. Os brasileiros também são os que menos investem no longo ou longuíssimo prazo (24%), enquanto 54,5% dos franceses e 35,5% dos ingleses o fazem.

Como já destaquei em outros artigos, o investimento “exótico” e de elevado risco em criptoativos sofre a influencia de celebridades e outrso tipos de influencers o que tem deixado a nossa CVM de olhos e ouvidos bem atentos sobre o necessário compliance nas redes sociais na busca pela poupança dos brasileiros, afinal a mistura entre alto risco, confiança excessiva em influenciadores e a tendência de ligar a rentabilidade passada à futura pode ser uma receita para perder dinheiro quase sempre um suado dinheiro.

O fato é que desde dezembro de 2020, o bitcoin é negociado em níveis muito baixos. O colapso não cessa, a ponto de a criptomoeda também perder a barreira de US$ 20.000. A maior das criptomoedas perdeu um terço de seu valor em cinco dias.

O colapso já está próximo de 60% em dois meses e meio, já que no final de março se aproximava de US$ 50 mil..

A rápida retirada de estímulos monetários começou a disparar alertas sobre possíveis recessões no final deste ano ou início do próximo ano, e se materializou em vendas fortes que vão desde ativos de alto risco até ativos defensivos que afetam criptomoedas, ações e renda fixa. No momento, só as matérias-primas podem ficar, logo os ativos de maior liquidez como as cripto são os primeiros a serem vendidos, provocando um efeito manada.

O maior perfil de risco das criptomoedas, e sua maior volatilidade, multiplicaram as quedas no universo cripto em relação às registradas nos mercados tradicionais. A persistência dos atuais níveis históricos de inflação desencadeou os aumentos das taxas planejados pelos bancos centrais. Esse aperto esperado das condições de financiamento acentua a aversão ao risco. Os investidores também se encontram com retornos crescentes em ativos de menor risco, como o dólar ou juros de títulos.

O espetacular rali que o bitcoin e o resto das criptomoedas encenaram até novembro do ano passado ocorreu em um contexto oposto, caracterizado pelas políticas ultra-expansionistas dos bancos centrais, com taxas zero e injeções de liquidez, e com uma queda de baixa tanto nos rendimentos dos títulos quanto no preço do dólar.

Aos fatores externos às criptomoedas essa pressão sobre o mercado tem sido adicionada nos últimos dias uma série de referências que emergem o medo de um impacto em cadeia entre as empresas do universo cripto. O corralito decretado por Celsius, a suspensão temporária da retirada de bitcoins pela Binance e os cortes de emprego da Coinbase refletem as consequências que os colapsos do bitcoin e o resto das moedas digitais estão tendo no universo cripto.

Ainda recente ao colapso do Terra, o mercado cripto enfrenta agora a situação crítica da Celsius, uma das maiores empresas de empréstimos de criptomoedas dos Estados Unidos.

Os últimos colapsos sofridos no mercado cripto deixam várias sequelas, e algumas delas contribuem para agravar as pressões para baixo sobre o conjunto de criptomoedas.

Isso já aconteceu há um mês com o colapso do Terra, que abalou as fundações das stablecoins (criptomoedas estáveis, ligadas a ativos como o dólar). Agora, os alertas estão concentrados em empresas de empréstimos de criptomoedas.

Uma das maiores empresas do setor nos Estados Unidos, a Celsius, foi forçada a anunciar uma espécie de “corralito” para evitar maiores saídas de dinheiro que comprometem sua viabilidade.

A empresa, avaliada em US$ 3,25 bilhões em novembro, anunciou que está suspendendo a retirada de dinheiro de sua plataforma, bem como transações entre contas, “para estabilizar a liquidez e as operações enquanto tomamos medidas para preservar e proteger os ativos”.

No comunicado enviado pela própria empresa para anunciar suas medidas extraordinárias, acrescenta que “estamos tomando esta decisão hoje de colocar Celsius em uma posição melhor para cumprir, ao longo do tempo, suas obrigações de retirada”.

A situação limite enfrentada pela Celsius, uma das maiores empresas de empréstimos de criptomoedas do mercado americano, coloca o setor como um todo em destaque, um dos principais destinatários dos avisos lançados nos últimos tempos pelos reguladores dos EUA.

O boom e o rali nos últimos anos do mercado de criptomoedas desencadearam o negócio de empresas que ofereciam empréstimos por meio de ativos digitais. No caso de Celsius, em novembro passado, coincidindo com os recordes históricos alcançados pelo bitcoin, conseguiu levantar 750 milhões de dólares em uma rodada de financiamento na qual investidores institucionais tão proeminentes quanto o segundo maior fundo de pensão do Canadá participaram.

Todo esse movimento de derretimento da poupança popular ocorre em meio a pouca ou quase nenhuma regulamentação dos criptoativos, o que certamente indica os próximos passos.

(Artigo publicado no site www.jusbrasil.com.br, em 18 de Junho de 2022).

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