CRIPTOATIVOS E O RISCO DOS DIGITAL INFLUENCERS

Nada alimenta mais ao homem do que a expectativa de lucros fartos e rápidos, a ideia de ter uma vantagem, de ganhar rápido sem grandes esforços, algo que alimenta a vaidade do homem que acredita que seu sucesso junto a família, aos amigos e a sociedade como um todo depende da velocidade das conquistas e logo sua esperteza” é um elemento fundamental para conseguir atalhos. É justamente essa sede de lucro rápido e fácil que serve de fermento para manutenção de golpistas e aproveitadores.

A origem da expressão “cair no conto do vigário” tem sua origem no século XVIII, na cidade de Ouro Preto entre duas paróquias: a de Pilar e a da Conceição que disputavam a mesma imagem de Nossa Senhora.

Diz a história que um dos vigários propôs que amarrassem a santa no burro ali presente e o colocasse entre as duas igrejas. A igreja que o burro tomasse direção ficaria com a santa. Acontece que, o burro era do vigário da igreja de Pilar e se direcionou para lá deixando o vigário vigarista com a imagem.

Os séculos passam, as formas se modificam e algumas estratégias se sofisticam com o propósito de sempre se obter vantagem, nos atualizados “contos do vigário”.

Hoje com o tempo que nos dedicamos aos nossos celulares, tablets e computadores, o risco reside em maior grau na opinião nem sempre balizada e na maioria das vezes comprometida, dos “digitais influencer”, que fazem o risco de um eventual prejuízo ganhar dimensões assustadoras.

A receita é sempre a mesma, pessoas de sucesso em alguma área, não precisa ser financeira, pode ser esporte, artístico, acabam emprestando seu nome e suas reputações para prospectar clientes e dar credibilidade a um novo investimento.

Recentemente Melania Trump, ex-primeira-dama dos EUA , aderiu à “febre” dos NFT (Non Fungible Token), lançando a sua própria plataforma de vendas em leilão.

A ex-primeira-dama dos Estados Unidos leva a leilão a “coleção chefe de Estado”, assim batizada por comemorar a primeira visita oficial de um líder de Governo à Casa Branca, durante o mandato de Donald Trump.

De acordo com o site, “uma parte dos lucros deste leilão” irá para iniciativas de caridade apoiadas pelo projeto “Be Best” de Melania Trump, embora não seja explicado na plataforma o que acontecerá à restante parte deste montante.

A primeira obra leiloada foi um quadro dos olhos da ex-primeira-dama, pintado pelo artista francês Marc Antoine Coulon e intitulado “Visão de Melania”. A imagem foi vendida em parcelas, podendo cada utilizador adquirir uma parte (também fracionada através da tecnologia blockchain), sob a condição de pagar uma solana (cerca de 126 euros à taxa de câmbio atual). Este leilão terminou no final de dezembro.

É bom recordar, ao contrário de Melania Trump, o seu marido e ex-presidente dos EUA, Donald Trump, é um crítico habitual do universo cripto. Em novembro, o antigo ocupante da Casa Branca descreveu as criptomoedas, em entrevista à Fox Business, como um desastre iminente. Já em 2019, Trump já havia dito que “a bitcoin e as outras criptomoedas não são dinheiro, dado que o valor é altamente volátil e baseado no ar”.

O universo de criptoativos, não foge a regra histórica de dar brilho ao que seja conveniente na captação da poupança popular, através de estratégias de marketing que usam o nome e a reputação de digital influencers, o que amplia o risco nesse investimento. Curiosamente a maioria absoluta das estratégias de marketing, pouco falam sobre os riscos, em meio ao desfile de celebridades.

A modelo Kim Kardashian está enfrentando um processo judicial de milhares de investidores por promover uma nova criptomoeda, o EthereumMax, que acabou sendo um fiasco. Essa é a relação turbulenta das celebridades com o mundo das ‘criptomoedas’.

Em um comercial no Instagran, o ex-jogador do Barça Andrés Iniesta postou a seguinte mensagem: “Estou aprendendo a começar com criptomoedas com a Binance.” e logo a CNMVl (a CVM da Espanha) desse um puxão de orelhas ao autor do gol que deu à Espanha a Copa do Mundo na África do Sul. Na velha fórmula, Iniesta usou sua popularidade, ele tem 38 milhões de seguidores no Instagram e outros 22 milhões no Twitter, para promover a Binance, a maior plataforma de câmbio de criptomoedas que permite comprar e vender mais de 100 ativos digitais, incluindo Bitcoin e Ethereum.

De agora em diante, Iniesta teria que alertar os investidores sobre a possibilidade de perder todo o seu dinheiro. Novos anúncios precisarão incluir este aviso: “Investir em ativos cripto não é regulamentado, pode não ser adequado para investidores de varejo, e todo o valor investido pode ser perdido.” Essa regra da CNMV, que já foi publicada no BOE e entrará em vigor em fevereiro, causará uma mudança radical na forma como as plataformas dedicadas à venda de criptomoedas são anunciadas.

Mundo afora, as campanhas publicitárias maciças desses produtos tomaram as redes sociais e ruas. O objetivo sempre é atrair investidores de varejo com a atração de enriquecimento rápido. O que seus promotores não dizem é que as perdas também podem ser tão rápidas quanto volumosas. Em outubro, o Bitcoin ultrapassou US $ 66.000 e agora está sendo negociado a US $35.205, uma queda de mais de 40% em três meses.

Na Europa, a CNMV foi o primeiro órgão que regula a publicidade dessas moedas

Iniesta é a primeira figura pública a receber uma repreensão pública da CNMV, mas esse órgão já alertou influenciadores financeiros em diversas ocasiões que eles não podem fazer recomendações de investimento através das redes sociais. São conselhos de investimento pessoais feitos por usuários não profissionais, que escondem conflitos de interesse e às vezes são diretamente ilegais, disse o supervisor.

Há muitas celebridades que, como Iniesta, promovem investimentos em criptomoedas como Messi, Elon Musk, Johnny Depp, Ashton Kutcher, Paris Hilton, Richard Branson, Gwyneth Paltrow, Kanye West, Paris Hilton, Ashton Kutcher, Kim Kardashian, Matt Damon, Floyd Mayweather e Steven Seagal. Alguns são fãs declarados de Bitcoin, como Ashton Kutcher e Paris Hilton, enquanto outros, como Leo Messi, colocaram sua imagem a serviço de moedas digitais. O futebolista argentino concordou em receber parte de seu salário no Paris Saint-Germain por meio de criptomoedas, e em 2018 promoveu o Finney mobile, que permitiu a troca de ativos digitais. Elon Musk, por outro lado, tornou-se o maior influenciador desse tipo de moedas no mundo. Um tweet de suas causas sobe e cai no Bitcoin, Ethereum e Dogecoin, que são seus ativos cripto favoritos.

O uso de pessoas famosas para promover o Bitcoin e a empresa nas redes sociais tornou-se tão comum que a SEC americana foi forçada a enviar uma mensagem clara e contundente: “Nunca é uma boa ideia fazer um investimento só porque alguém famoso diz que um produto ou serviço é um bom investimento”.

Apesar disso, uma pesquisa da consultoria Cardify mostra que as celebridades são a principal fonte de informação para investidores de criptomoedas, incrível? Muitos seguidores de Kim Kardashian sofreram no bolso, que investiram na nova moeda EthereumMax quando a famosa modelo promoveu essa criptomoeda nas redes sociais. Seu tweet “Você gosta de cripto?” para popularizar o EthereumMax fez história no mercado financeiro porque atingiu 250 milhões de pessoas.

A mensagem desencadeou o preço da nova moeda, mas apenas uma semana depois, o EthereumMax, que não possui nenhuma relação com a moeda Ethereum, perdeu 70% de seu valor, e o preço nunca se recuperou. Muitos investidores entraram com uma ação judicial nos Estados Unidos alegando que Kardashian e outras celebridades, como o boxeador Floyd Mayweather e o ex-jogador da NBA Paul Pierce, ajudaram a inflar o preço do EthereumMax como parte de um esquema que enriqueceu seus apoiadores às custas de pequenos poupadores.

A alta volatilidade no preço das criptomoedas também causa uma infinidade de fraudes com base na personificação de empresas e gestores. A moeda Litecoin, por exemplo, subiu 30% no dia em que alegaram declarações de um executivo sênior do Walmart que apareceram dizendo que a cadeia aceitaria o Litecoin como moeda de pagamento.

A dogecoin, a criptomoeda que nasceu como uma piada, disparou após Elon Musk anunciar que os produtos de merchandising da Tesla poderiam ser comprados com esta moeda digital.

“O merchandising da Tesla pode ser comprado com dogecoin”, anunciou Elon Musk no Twitter. E a criptomoeda que nasceu como um ‘meme’, não demorou muito para reagir e disparar até cerca de 20%, para ultrapassar US $ 0,21, em uma semana de quedas generalizadas para as criptomoedas.

Esses fortes aumentos catapultam a dogecoin para o ‘top 10’ das criptomoedas por capitalização de mercado, já que seu valor é próximo de 27.000 milhões de dólares, ligeiramente acima da polkadot. No último ano, a dogecoin subiu 1.960%.

Musk, CEO e fundador da Tesla, já havia avançado através de sua rede social em dezembro passado a possibilidade de aceitar dogecoin como um método de pagamento para alguns produtos da montadora, mas agora ele tornou isso realidade.

A Tesla também indica em seu site que todos os produtos que podem ser comprados com esta criptomoeda terão um preço claro em dogecoins, que incluirão impostos aplicáveis. É claro que os itens adquiridos sob este método de pagamento não podem ser devolvidos ou reembolsados.

Há alguns meses, a Tesla também aceitou o pagamento com bitcoin para comprar seus carros, mas apenas por 50 dias. Elon Musk disse mais tarde que os reautorizaria com a condição de que eles usassem menos energia poluente durante o processo de mineração.

Em novembro de 2021, o preço do bitcoin chegou a US$ 69 mil, valor máximo já alcançado e dois meses depois, já caiu mais de 40%.

De olho nesse movimento, no ano passado a CVM firmou um convênio para acompanhar no Brasil a atuação dos “influenciadores de investimento”. O acordo prevê, entre outras medidas, o uso de uma ferramenta de gestão de informações para o monitoramento de publicações sobre investimentos e finanças nas redes sociais.

Segundo a CVM, o convênio foi instituído considerando o aumento expressivo do número de investidores pessoa física no Brasil e a capacidade dos criadores de conteúdo de investimento em influenciar a tomada de decisão de seus seguidores. Na esfera de atuação da CVM, o monitoramento poderá observar o cumprimento das regras previstas na Instrução CVM 8 e na lei 6404/76, que veda o uso de informação relevante para obtenção de vantagens no mercado financeiro.

O tema entrou na agenda da instituição já em 2020, com o início do monitoramento dos influenciadores digitais, incluindo desde perfis que abordam educação financeira e explicam os produtos de investimento até traders e outros tipos de profissionais do mercado. Com o apoio de uma empresa especializada na análise de dados, foram identificados cerca de 265 influenciadores ativos falando sobre investimentos e finanças pessoais, com um alcance médio de 74 milhões de seguidores.

O propósito do convênio, é permitir que a CVM possa identificar aqueles que acabam ultrapassando o limite da educação financeira e avançam na recomendação de produtos ou carteiras, atividade para a qual é preciso ter habilitação da autarquia.

Tenho a impressão que estaremos diante de uma tarefa de enxugar gelo, mas certamente uma pequena fiscalização é sempre melhor do que nenhuma. Ao mesmo tempo o exercício dessa fiscalização certamente vai gerar mais conteúdo para que novos investidores possam ficar mais atentos aos riscos desse tipo de investimento.

(Artigo publicado no site www.jusbrasil.com.br, em 25 de Janeiro de 2022)

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