CIBORGUES OU TRANSHUMANOS?

O avançar da nanotecnologia, da inteligência artificial, dos nanochips e de tantas novas conquistas levanta uma discussão interessante, afinal o que seremos ciborgues ou transhumanos?

No mesmo mundo onde vivem negacionistas ideológicos, catalisados por mitos e suas Fake News, convivem também mentes que estudam o futuro e nesse futuro a interação dos homens com os novos avanços tecnológicos.

Qual será o limite legal para os implantes nos humanos das novas tecnologias? Qual o limite para o uso dessas novas tecnologias em atletas? São novas reflexões em um universo com a presença cada vez mais corriqueiras em tecnologias que transformam os humanos em ciborgues, ou seria transhumanos?

No conceito do que seriam os novos ciborgues, bem distintos da série televisiva “O Homem de Seis Milhões de Dólares” que por muitos anos era exibida nas tardes da Globo, hoje a tecnologia não custa tanto e começa a fazer parte da rotina de muitos. Certamente como alerta Martin Pino em obra já citada: “Tipologias do ciborgue Há duas maneiras de misturar-se com as máquinas: expandindo o cérebro através de implantes de chips e nanochips ou transformando os circuitos cerebrais em supercomputadores. Poderia fazer-se isso modificando as ligações entre os neurônios (sinapses), transformando-as em circuitos de um supercomputador. Mas há outra estratégia. Para usar um termo mais familiar para quem sabe um pouco de ciência da computação: pode montar-se uma máquina virtual mais poderosa, usando como base o cérebro humano. Para montar uma máquina dessa espécie, a partir do cérebro, talvez possa ser usado um vírus semelhante aos vírus de computador, que se apossam das máquinas das pessoas, para depois fazer com que elas executem determinadas tarefas sem que seus donos percebam. Esses vírus invadiram o cérebro, modificando-o, ou poderiam também tomar a forma de micromáquinas invasoras que modificaram o cérebro em nível molecular. Um enxame dessas micromáquinas, ou nanomáquinas, poderia invadir o corpo humano. Dessa mistura com máquinas, resultarão dois tipos de ciborgues: um primeiro mais inteligente que os humanos e outro tipo quase humano, menos capaz do que o normal. Ambos serão construídos sobre plataformas humanos (cérebros/corpos humanos modificados). No caso do primeiro ciborgue, isso significa expansão de memória e aumento de velocidade do cérebro. Serão aperfeiçoamentos importantíssimos, pois o cérebro humano não evolui há 200 mil anos. Ele é o mesmo cérebro de quando vivíamos em bandos pelo planeta, caçando e fugindo de animais ferozes. Com esse cérebro obsoleto, não será possível conseguir nos dias atuais, processar a enorme quantidade de informação necessária para sobreviver na sociedade pós–moderna. O segundo tipo de ciborgue é o humano com um cérebro simplificado, ou seja, um cérebro subutilizado porque uma parte dele foi tornada um computador programado para realizar tarefas simples. Esses ciborgues têm cérebros parcialmente humanos (híbrido, meio orgânico meio máquina) ligados a corpos complexos como os das pessoas comuns. O corpo humano é um dos melhores robôs já produzidos pela natureza, além de existir em relativa abundância. Talvez a melhor palavra para designar esse tipo seria ciborgue.

Por mais que se avance na ciência ela depende do homem para evoluir, e interpretar os dados, ou seja a IA dependem da abordagem humana, e principalmente do uso ideológico dessas novas tecnologias, e é exatamente ai que reside parte do risco.

Afinal sabidamente, a cada dia produzimos ao longo de nossa história de vida, relatos, fotos e depoimentos registrados diariamente em meios digitais nas nossas inúmeras redes sociais, e ao mesmo tempo é público que as diversas plataformas têm regras diferentes sobre o que acontece com as contas de pessoas que morreram, e logo mais dados estarão sempre disponíveis para os novos aparatos tecnológicos, seja na expansão da nossa memória por chips, ou a atualização de conhecimentos por esses mesmos aparatos.

Tente imaginar nos registros que por realidade aumentada e por realidade virtual poderão estender e dar vida a essas memórias?

Realidade aumentada, realidade virtual, Inteligência Artificial e data mind dessas pessoas podem reconstruir memórias e diálogos? Quem pode autorizar isso? A criação desses avatares passa pelo direito de herança? Nossas memórias estendidas por chips nos tornam então os novos ciborgues?

E o que seriam os transhumanos? E qual seria a convergência limite entre homens e máquinas? Qual o limite legal nessa ligação, visto que os limites tecnológicos e biológicos parecem não ter fim?

A ideia parte do avanço dos estudos dos mecanismos das sinapses neuronais, e a diferença entre os mecanismos de conexão interneuronal que conhecemos da neurofisiologia humana e conexões digitais.

De uma forma muito básica, uma sinapse é uma conexão entre neurônios para a transmissão de um impulso nervoso que é estabelecido por uma ligação químico-elétrica, quando o dendrite de um deles libera no espaço sináptico uma série de neurotransmissores (principalmente noradrenalina e acetilcolina) que excitam ou inibem receptores na superfície do axônio do neurônio receptor.

A natureza deste elo é extremamente complexa em comparação com as simples conexões elétricas que são estabelecidas para muitas outras funcionalidades fisiológicas, e muito mais do que aquelas que estabelecemos no mundo digital. E embora saibamos perfeitamente bem a natureza e as características da sinapse neuronal, sua racionalidade não é tão clara do ponto de vista filogenético e evolutivo: por que nossos neurônios estabelecem uma união tão complexa em vez de simplesmente transmitir o impulso elétrico diretamente? Que racionalidade evolutiva tem tal mecanismo?

É fato que tecnologicamente, a mera aplicação da lei de Moore nos leva, muito possivelmente, a replicar um sistema com uma série de conexões semelhantes ao que o cérebro de alguns animais teria em pouco tempo. No entanto, mesmo que pudéssemos replicar essa estrutura de ação e codificar nela, por exemplo, os circuitos neurais redundantes que compõem uma memória, não só não teríamos a capacidade tecnológica de moldar essas conexões seguindo o esquema de uma sinapse, mas também para entender as razões pelas quais essas conexões são estabelecidas dessa forma.

Do ponto de vista funcional, um cérebro humano tem suas limitações óbvias, pois esquecemos as coisas facilmente ou lembramos delas distorcidas em outras ocasiões, e não estou falando de questões de cunho ético, mas memórias que podem ser afetadas por novos traumas que nos levam a visões distorcidas da natureza dos fatos, onde o emocional influencia na narrativa.

Uma máquina pode funcionar como um suporte para a funcionalidade desse cérebro e, obviamente, é algo que fazemos todos os dias, embora ainda estejamos dimensionalmente longe dessa máquina ser capaz de agir como um só, do ponto de vista da arquitetura funcional simples. E até que possamos entender as razões pelas quais os neurônios em um cérebro se comunicam dessa forma, ou mesmo tecnologicamente para replicar essas conexões, acho que ainda estaremos longe da ideia de replicar o funcionamento de um cérebro.

A tecnologia feita pelo homem foi, sem dúvida, capaz de mudar significativamente seu ambiente, algo que influenciou drasticamente a essência e características da civilização humana. Mas as características da própria espécie humana, embora estejamos nos aproximando para entender muitas delas e até mesmo conseguir alterá-las quando elas funcionam mal, ainda são diferenciais, e aparentemente inatingíveis.

Inegavelmente o transhumanismo tem elementos muito atraentes e interessantes, sim, mas acho que ainda estamos longe de ser capazes de materializar qualquer uma das hipóteses que ele propõe.

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