CIBERESPAÇO, ONDE COVARDES VIRAM VALENTES.

É de 1984 o registro do uso da palavra Ciberespaço, origem essa vinculada ao escritor William Gibson, que a teria usado na sua obra de ficção científica “Neuromente”, como tal é caracterizada por uma realidade virtual a qual se relaciona com o uso dos computadores e redes do mundo, para outros ele seria o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores.

É justamente a ampliação do Ciberespaço que leva ao crescimento tanto da liberdade (individual e coletiva) quanto da comunicação e interdependência. Logo, a computação social da Web 2.0 trouxe uma mudança significativa no uso da web, pois, “enquanto em sua primeira fase a web é predominantemente para leitura de informações, esta segunda fase cria possibilidades de escrita coletiva, de aprendizagem e de colaboração na e em rede”, e como todos sabemos a interface da colaboração em rede acelera a internet.

Com as redes sociais, principalmente com o Facebook, Instagram, YouTube, Whatsapp, Google, Wikipédia, Google Maps, Twitter o uso da rede foi acelerado, bem mais do que o simples envio de e-mail, pois as redes sociais e as ferramentas de busca deram uma nova dinâmica, logo, pesquisar, compartilhar e curtir aceleram o uso pela dinâmica de atenção que envolve as redes sociais.

Por isso se pode dizer que as novas tecnologias têm exercido grande influência na sociedade contemporânea, visto que esses aplicativos incorporam hábitos e redesenham novos usos, criando assim uma nova cultura de relacionamento.

Claro que com o uso, crescem os riscos, por isso é essencial que as pessoas saibam utilizá-las de forma racional e de maneiras que não prejudiquem a coletividade e o ecossistema.

O uso implica em consequências, portanto deve-se ter presente que cada atitude tomada pode acarretar no desenvolvimento do meio, redesenhando hábitos e motivando comportamentos, onde novas tecnologias edificam novas relações sociais e o livre trânsito virtual.

O fato das novas tecnologias facilitarem as comunicações entre as pessoas, tornando-as mais céleres, praticamente eliminando fronteiras, não pode ser aceita com total euforia, pois como tudo essa dinâmica trouxe significativas mudanças comportamentais, afinal, ao mesmo tempo em que aproxima, as ferramentas tecnológicas deixam as pessoas mais distantes uma das outras, deixam o contato cada vez mais virtual e as relações interpessoais cada vez mais vazias, frias, e principalmente superficiais, onde pensamos saber tudo de todos e quase nada de ninguém.

Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, ao estudar a influência que as tecnologias (internet, aparelhos celulares) exercem sobre as pessoas e como auxiliam na configuração do que denomina de relações virtuais, visto que as relações humanas estão cada vez mais flexíveis, inseguras, os relacionamentos (“em rede”) são cada vez mais são efêmeros, de curta duração, e muitas vezes não ultrapassam o contato por meio da máquina eletrônica, as pessoas escondem-se atrás das máquinas e valem-se do ambiente virtual, e é nesse esconder-se que mora o perigo.

É inegável que a proximidade virtual ostenta características que, no líquido mundo moderno, podem ser vistas, com boa razão, como vantajosas, porém, ao mesmo tempo o ambiente virtual causa a impressão de uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar o terreno doméstico comum. (BAUMAN, 2004, p. 39-40). É preciso, portanto, ficar atento às consequências e repercussões das atitudes dos usuários no Ciberespaço, pois é um meio que facilita a propagação rápida e a violação de direitos de terceiros. Contudo, é igualmente importante analisar as consequências éticas oriundas da predominância da comunicação humana em um ambiente tecnológico (em detrimento do ambiente físico).

Com a Internet, as técnicas de poder foram alteradas. A citada “ausência de fronteiras” é uma situação que repercute nas relações de dominação entre os indivíduos, pois os grupos que conseguem se adaptar rapidamente as mudanças e exigências da sociedade podem exercer o controle sobre a grande parcela das pessoas, e os algoritmos em pleno uso nos últimos anos funcionam como catalisadores na ampliação desse domínio.

Para Bauman, quando fala da fluidez da modernidade (em constante alteração da sua forma), a maioria acomodada, sem iniciativa, é dominada por uma elite em constante aprendizado e sem limites territoriais, o que se percebe com o total domínio das bigtechs, onde as plataformas digitais tudo ou quase tudo podem ou fazem.

Hoje tem acesso ao poder aquele que se adapta de forma paulatina às mudanças sociais, ao novo. Esse domínio decorre do controle do fluxo de dados e do registro inteligente desses dados. Logo, o deslocamento e o acesso a dados, à informação, são quase instantâneos. Isso faz com que as relações de dominação tenham relação com a capacidade de desprendimento das pessoas com as coisas do passado/presente e a de movimentar-se de forma rápida e de adaptar-se em um novo lugar. E nesse contexto, é possível asseverar que no ciberespaço surgem novas formas de inter-relação entre as pessoas e a maneira as mais variadas situações são tratadas. É possível falar em uma nova ética, a qual vai atingir nas liberdades dos indivíduos e influenciar as relações sociais no meio virtual.

Precipuamente a internet decorre da influência das novas tecnologias no meio social, ela não está expressamente prevista na Constituição Federal, mas o art. 222, §3º, da CF trata acerca dos “meios de comunicação social eletrônica”. Trata-se de ferramenta que tem mudado comportamentos, gerado novas atitudes e sentimentos; identifica-se uma nova linguagem e novos parâmetros para a construção das relações interpessoais; surgem novos valores ou estes incorporam novas significações

E assim os contatos tornaram-se efêmeros, muitas vezes sem identificação ou consideração com o sentimento alheio. Oportunistas valem-se desses contatos virtuais por ser uma forma mais fácil de enganar pessoas, por outro lado, nunca foi tão fácil poder contatar ou ajudar pessoas que estão em locais distantes. A liberdade é um valor que pode caracterizar o mundo virtual.

Logo, por muitos subterfúgios, covardes se escondem na propagação de mentiras que maculam vidas e que constroem uma sociedade que parece amar mentiras.

Deve-se aqui destacar que há uma crença popular de que o anonimato deixa tudo mais fácil, tentador, prazeroso. A possibilidade de navegar por vários lugares ao mesmo tempo sem ser identificado auxilia aquelas pessoas mais inibidas, as quais têm dificuldades na comunicação face a face. Há ainda o fato de que muitas pessoas realizam a construção de personagens (sujeito digital) para que dessa forma possam se manifestar sobre os mais variados assuntos longe dos olhares de reprovação de seu grupo social ou de terceiros contrários a sua opinião. A sensação de estar inatingível proporciona o destravamento dos freios inibitórios e faz com que a pessoa participe, interaja com os demais cibernautas. O problema, evidentemente, surge quando essa sensação de não identificação gera sentimentos de impunidade, de que a pessoa está à margem da lei e ainda seus atos e suas atitudes não acarretarão consequências.

O desafio é regrar e punir sem travar a livre iniciativa, sem deixar de apenar o que do espaço fazem mau uso.

Ainda que muitas das vezes seja no anonimato do “lugar virtual” que se experimenta solitariamente uma nova sociabilidade, o viajante pode caminhar por diversas infovias até encontrar o grupo ou tribo com que mais se assemelha, ou informações. Ao encontrar sua tribo, o indivíduo fixa-se neste endereço eletrônico e passa a experienciar e compartilhar de um lugar simbólico e marcado por relações de pertencimento de caráter ideológico, afetivo, sexual ou racial.

Tempos desafiantes sem dúvida, onde o conforto de hoje pode ser o incômodo de amanhã.

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