CHIPS, O GARGALO DA TRANSFORMAÇÃO DIGITAL?

A transformação digital ocorrendo de forma acelerada, obriga a indústria mundial a redesenhar suas plantas, e estabelecer novas prioridades.

Muitas indústrias, como no caso das montadoras redesenharam inclusive a sua grade de produtos dando prioridade aos modelos de maior valor agregado, e dessa forma suprindo a que queda nas vendas com produtos de maior valor agregado e dessa forma melhorando seus resultados.

Na Alemanha as montadoras de carros de luxo, impuseram preços recordes em seus modelos em 2021, coincidindo com o aumento da demanda e a escassez de semicondutores que atingiram o fornecimento de veículos nos principais mercados.

De acordo com uma análise realizada pelo banco Stifel para o Financial Times, a receita correspondente aos modelos da BMW, Audi e Mercedes-Benz aumentou em média quase 25% em relação ao ano de 2019, antes do surto da pandemia,

Por trás desse aumento está a reversão de uma tendência que continuou por décadas, na qual a indústria produzia mais carros do que vendia.  Naquela época, os fabricantes de automóveis ofereciam descontos significativos para cumprir as metas de volume de vendas a tempo.

Desde 2019, quando a economia global começou a recuar, os fabricantes fizeram menos carros do que podem vender, e este ano, em particular, a diferença aumentou para cerca de 4 milhões de veículos. Após a crise financeira de 2009, houve um déficit semelhante.

Com esse quadro, as receitas da Mercedes-Benz passaram de quase 38 bilhões de euros por carro em 2019 para mais de 54 bilhões de euros em 2021 até o final do terceiro trimestre

A análise de Stifel mostra que, em um único trimestre, os lucros da Mercedes antes dos juros e impostos aumentaram 1,4 bilhão de euros simplesmente por causa do aumento de preços e da instalação de chips disponíveis para veículos high-end. Ao mesmo tempo os fabricantes de automóveis de luxo também se beneficiaram de aumentos recordes de preços para modelos de segunda mão. Isso não só tornou a compra de carros novos mais atraente, como aumentou os balanços das divisões financeiras dos fabricantes de luxo, que gerenciam grandes negócios de leasing.

A falta de chips atinge toda indústria no mundo, e antes que um delirante crie uma nova teoria da conspiração colocando os chineses como culpado, alerto que a falta atinge toda indústria eletroeletrônica do mundo, e isso inclui a China.

Por sua vez a Dell também confirmou em sua conferência com analistas que as questões de fornecimento de componentes continuarão, em que pese ter apresentado uma receita recorde de 26,12 bilhões de dólares apenas no trimestre encerrado em julho, um aumento de 15%.

Nesse momento a maior fabricante de chips do mundo, a TSMC que é de Taiwan, e que já havia tornado público em julho último suas expectativas de que a crise dos chips começaria a diminuir neste próximo trimestre, já anunciou um aumento de 10% em seus preços dos chips mais avançados e de 20% para os chips de gerações anteriores, ou seja os mais comuns para toda indústria.

Definitivamente na indústria esse foi o ano do chip, que mostrou a sua importância na economia em transformação, os semicondutores, demonstraram sua enorme importância estratégica e as possíveis consequências na geopolítica.

Estamos falando de uma indústria que é muito geograficamente fragmentada entre suas três fases diferentes (design, fabricação e montagem/teste), com enormes interdependências e diferentes fatores críticos. Se na fase de projeto o software e as patentes prevalecerem, e está principalmente nas mãos de empresas norte-americanas e europeias; na fase de fabricação, o mais crítico é a produção de máquinas fotolitografia muito complexas e os processos industriais relacionados ao seu uso, nas mãos de empresas sul-coreanas ou taiwanesas.

Essa situação, juntamente com o potencial uso de microchips em aplicações militares, coloca os equilíbrios entre os diferentes blocos em uma situação muito delicada: no momento, a ARM Holdings, uma das empresas mais importantes em design de chips, com sede no Reino Unido e criada em 1978 quase por acaso por uma empresa de computadores agora extinta, está em espera para venda a uma empresa dos EUA devido a preocupações com os interesses de segurança do país, suas potenciais implicações monopolistas e a oposição de sua subsidiária chinesa, controlada principalmente por fundos de investimento dos EUA.

Enquanto isso, a ASML Holding, empresa holandesa que fabrica as máquinas para fazer chips, está proibida de exportar para a China, mas tem um de seus principais clientes em Taiwan, leia-se TSMC, que ao lado da sul-coreana Samsung, são as duas empresas que melhor gerenciam a fabricação dos chips mais avançados, aqueles que são capazes de usar tecnologias abaixo de dez nanômetros. Isso faz de Taiwan um território extremamente estratégico que, além das  tensões históricas com a China por sua reunificação, deve enfrentar as demandas dos Estados Unidos que tentam impedi-lo de exportar seus produtos para o gigante asiático.

Tal estrutura, completamente dissociada, atormentada por interdependências e sujeita a complexos interesses estratégicos e militares, é aquela que está dentro cada vez mais dos dispositivos e dispositivos que usamos no nosso dia a dia. Hoje, tudo tem um chip, de um carro até a escova de dentes a um smartphone, um wearable ou uma câmera. O ano de 2022 será muito interessante para indústria, quando acreditamos que as tensões geopolíticas só devem aumentar.

O problema que surgiu com as mudanças abruptas na demanda e as restrições impostas aos trabalhadores em muitos territórios e indústrias durante a pandemia foi, na realidade, o gatilho para uma crise há muito anunciada: um conjunto de processos desordenados, em que fizemos coisas completamente absurdas como o transporte de produtos de maneiras radicalmente insustentáveis e sem sentido, simplesmente “porque poderíamos”. A interrupção do tráfego no Canal de Suez e a pandemia causaram um transtorno muito importante que culminou em um desastre total do sistema, com navios que não podiam descarregar suas mercadorias, contêineres escassos com preços altos e cadeias de suprimentos completamente quebradas.

A incorporação de machine learning ou gêmeos digitais em processos logísticos podem ser interessantes para colocar ordem no futuro, mas a realidade é que, após a crise, teremos que reconstruir uma cadeia de suprimentos que, necessariamente, terá que ser muito diferente.

Não se trata apenas do redesenho logístico, pois essa é também uma indústria altamente concentrada e essa produção não se resolve na velocidade da necessidade impulsionada pela transformação digital.

Para se ter a dimensão da concentração de produção desses chips, apenas a TSMC fabrica 92% dos chips mais sofisticados, e 60% de outros mais simples), com uma com uma vantagem tecnológica significativa sobre as demais, e cujo preço afeta um número bem maior de produtos, ou seja vem alta mundial de preços para tudo que dependa de chips e seus circuitos integrados.

Toda a indústria automobilística do mundo sentiu, com exceção da Tesla, uma empresa mais tecnológica do que automotiva que foi capaz de redesenhar seu software para manter sua produção, logo não parou por nenhum dia todas as suas plantas de fabricação, ao contrário de todas as demais empresas de automóveis, que foram forçadas a fechar suas montadoras, reduzindo inclusive seus investimentos em publicidade em todo o mundo, impactando toda mídia do mundo, visto que estão entre os maiores anunciantes.

Estamos falando de uma indústria extremamente complexa, na qual um pequeno nanômetro define uma imensa vantagem tecnológica, e em que as matérias-primas são encontradas apenas em poucos lugares, onde as empresas que projetam a arquitetura dos chips são diferentes daquelas que projetam e fabricam as maquinas pra lá de especializadas para fabricá-las.

Chegamos a um momento curioso, você pode substituir seu carro movido a petróleo por outro movido a energia elétrica, mas em ambos sua dependência será cada vez maior dos chips, logo o que é mais importante?

A concentração vista nas plataformas digitais, as Big Techs, é ainda maior na produção de chips, e ninguém havia se debruçado sobre isso, pois a mesma pandemia que impulsionou os negócios de gigantes da tecnologia, também impulsionou a demanda pelos microprocessadores.

Conhecida como TSMC, a Taiwan Semiconductor Manufacturig Company, que é atualmente responsável pela fundição de chips para as principais cadeias de suprimentos globais, tornou-se o mais recente cavalo de batalha na luta política e tecnológica entre essas duas potências, curiosamente justamente a empresa taiwanesa que tem relações pra lá de espinhosas com a China.

Num processo verticalizado, onde todos os grandes players são essencialmente montadoras, como a Apple, Qualcomm, Broadcom, Cisco Systems e Nvidia essas norte americanas, a TSMC viu seus planos de construir em 2020 uma fábrica no Arizona irem por água abaixo ainda no Governo Trump, quando o Departamento de Comércio dos EUA divulgou regras que impactaram diretamente os negócios da companhia taiwanesa.

A primeira delas foi obrigar desde setembro de 2020, que fabricantes que usam equipamentos ou tecnologia de propriedade norte-americana precisarão solicitar uma licença antes de fornecer produtos à gigante chinesa de telefonia Huawei, responsável por cerca de 14% da receita da TSMC, o que já atingiu a empresa de Taiwan.

A TSMC, foi fundada em 1987, foi a primeira empresa do mundo voltada para a fundição de semicondutores. Seu modelo de negócio foi pioneiro por se concentrar na fabricação de chips sob medida. Envolvida em 272 processos de produção tecnológica distintos e atendendo a uma rede de 499 parceiros na Ásia, Europa e América do Norte, em uma visão global com operações em todo mundo.

Por não ter produtos de consumo final como Intel e Samsung a TSMC se diferenciou das demais fabricantes de semicondutores como a Intel e a Samsung, que por hábito acabam reservando os melhores chips a seus próprios produtos. Sendo que muitos dos clientes da TSMC são fabricantes de semicondutores de circuitos integrados, mas não dispõem da capacidade para produzi-los em massa, acredita-se que seus maiores clientes sejam a Apple 23%, e um subsidiária da Huawei, HiSilicon com 14%.

Para termos ideia de alguns números dessa guerra o governo chinês planeja investir, nos próximos cinco anos, 1,4 trilhão de dólares (10 trilhões de yuans) em infraestrutura e inovação tecnológica de projetos que vão desde a construção de redes sem fio 5G a softwares de inteligência artificial (IA) para a automatização de fábricas e direção automática. Sendo que nessa projeção há o propósito de expandir a indústria doméstica de semicondutores, buscando assim elevar a taxa de autossuficiência no setor para cerca de 40% ainda em 2021, enquanto aqui nosso líder para o país desejando colocar uma impressora nas nossas urnas digitais, que fase a nossa.

Mesmo com os investimentos dos concorrentes, a TSMC continuará sendo a maior fabricante de chips por contrato do mundo, pois nesse momento a China ainda ocupa apenas a quinta colocação nesse estratégico mercado. Ao mesmo tempo enquanto a TSMC fabrica produtos de ponta com a tecnologia de 5 nanômetros, a SMIC pode estar atrasada quase uma década, é bom lembrar que dez anos de atraso em tecnologia é uma eternidade, e enquanto você estiver se movimentando para diminuir o atraso, o seu concorrente com melhor escala e preço também estará trabalhando no desenvolvimento dos seus produtos.

A consequência natural, entre outros fatores, dos pedidos de patentes do Leste Asiático a um múltiplo de 3,46 vezes a taxa dos EUA, está sendo vista agora e é o elemento catalizador dessa guerra, os orientais fizeram o seu dever de casa.

A história da humanidade é essencialmente a história dos avanços tecnológicos, e curiosamente os chips, com sua produção concentrada na mão de poucos, e com domínio absoluto na mão de um só fabricante na ilha de 23 milhões de habitantes, de frente pra China e de péssimas relações com os chineses, é mais um curioso ingrediente nessa guerra de patentes, chips e muita tecnologia para o fundo principal que é definir quem vai ganhar a guerra no mundo regrado pela Inteligência Artificial e pela Internet das Coisas.

E inegavelmente nesse novo estágio evolutivo da humanidade os chips parecem ser o novo petróleo.

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