CHINA E A “TRIBUTAÇÃO” DOS BILIONÁRIOS DA TECNOLOGIA

Se tem algo que aprendi rapidamente durante o período que morei na China, é o temor que o cidadão tem do Estado Chinês, e fiquem certos, ele não é gratuito.

Nesse momento, o governo de Xi Jinping age com um punho de ferro absoluto, naquilo que eu chamo da “China sendo China”, exige submissão absoluta, e não tem problema se suas ações prejudicarem o que antes eram suas empresas fetiches que se gabava em fóruns internacionais.

Com duras punições, o que reflete precisamente a arbitrariedade das sanções e o poder abrangente do governo chinês de decidir unilateralmente como aplicá-las, praticamente independentemente de qualquer tipo de ação ou remédio que a empresa possa pensar em exercer. Se uma coisa é clara, é que Pequim está disposta a fazer qualquer coisa para disciplinar os gigantes da tecnologia.

Atualmente a tentativa de Xi Jinping de “prosperidade comum” levou os empresários mais ricos do país a agir.

Sabidamente, durante anos, os excessos dos magnatas da China têm sido lendários. Do Victoria Peak de Hong Kong (um grande centro comercial) ao Kensington Palace Gardens, em Londres, e ao Upper East Side, em Nova York, eles tomaram as propriedades mais caras do mundo. Muitos montaram uma coleção de aquisições de prestígio, desde clubes de futebol ingleses e vinhedos em Bordeaux até estúdios de Hollywood e jornais internacionais.

Agora, Jack Ma e seu grupo de titãs tecnológicos bilionários estão em uma missão urgente para mostrar seu espírito socialista através de uma enxurrada de doações e promessas públicas de caridade.

Uma súbita explosão de benevolência viu bilhões de dólares desviados de cofres corporativos e contas bancárias pessoais para causas ligadas ao Estado nos últimos meses, à medida que as elites empresariais mais ricas e poderosas do país tentam apaziguar Xi Jinping, o presidente chinês. Sabendo que na China é sempre melhor sangrar o bolso que ver o sol nascer quadrado nos nada transparentes processos chineses.

No entanto, dentro do crescente setor filantrópico da China, a campanha de doação foi recebida com ceticismo diante dos crescentes temores de que o Estado apertará seu controle.

A generosidade externa vem após a barragem de Medidas Regulatórias e Políticas focadas em tecnologia de Pequim, uma ofensiva ampla que subtraiu dezenas de bilhões de dólares do valor de algumas das maiores empresas do país e que vem prejudicando a riqueza pessoal de seus fundadores.

E por incrível que pareça, nesse momento os “doadores” não sabem exatamente quanto será suficiente, pois ainda não existe nenhuma regra definida, isso mesmo, não é uma alíquota. E logo a única coisa que eles podem fazer é olhar o quanto seus colegas de mercado contribuíram e tentar igualá-lo.

Portanto o foco do Partido Comunista Chinês na redistribuição da riqueza se intensificou este mês depois que Xi pediu uma regulamentação mais rigorosa de “rendimentos excessivamente altos” e medidas para “encorajar grupos e empresas de alta renda a devolver mais à sociedade”.

O líder chinês, após uma reunião de planejamento econômico de alto nível realizada há duas semanas, reiterou que a materialização da “prosperidade comum” da China era a exigência essencial do socialismo.

Dias depois que as observações de Xi foram publicadas há duas semanas, a Tencent, um dos maiores grupos de mídia social, jogos e tecnologia financeira da China, anunciou que destinaria 50 bilhões de yuans (6,55 bilhões de euros) para um “programa comum de prosperidade”.

No início de setembroa, Chen Lei, CEO da Pinduoduo, uma das maiores plataformas de comércio eletrônico da China, aderiu à campanha de engajamento, comprometendo-se a contribuir com US$ 1,5 bilhão (€ 1,27 bilhão) da receita futura da empresa para apoiar a modernização agrícola e a revitalização rural.

Outros que anunciaram novas contribuições sociais nas últimas semanas são o grupo de capital de risco Hillhouse Capital, de Zhang Lei, e Xing Wang, fundador da empresa de entrega de alimentos Meituan.

Após inundações na província de Henan no mês de julho, que resultaram em inúmeras mortes, vários grupos de tecnologia como Alibaba, Didi, Tencent e Pinduoduo doaram dezenas de milhões de dólares para os esforços de recuperação.

Para se ter uma medida do “temor reverencial”, nos últimos 10 anos, a quantidade de dinheiro doada anualmente pelos 10 maiores empresários da China quase triplicou, de acordo com dados do Instituto de Pesquisa Hurun da China. Dados compilados pela Bloomberg sugerem que as doações de bilionários chineses este ano já estão 20% maiores do que em todo o ano de 2020.

Agora, no entanto, a pressão parece estar aumentando sobre empresas e magnatas para modificar suas atividades de caridade de acordo com os ditames do Partido Comunista Chinês, uma mudança que especialistas dizem ameaçar minar suas boas intenções.

Há 30 anos o governo já falava em “distribuição terciária” em seus documentos oficiais, mas sem mostrar as garras, mas foi nos últimos meses que esse discurso ganhou força.

Desde que as novas leis de caridade da China entraram em vigor há cinco anos, organizações não-governamentais estão sob “forte escrutínio” à medida que as autoridades têm procurado conter o crescimento desenfreado de grupos do setor privado, percebidos para corroer o controle partidário.

Scott Kennedy, especialista em política econômica chinesa no Center for Strategic and International Studies, em matéria publicada pelo jornal econômico Expression, observou que muitos dos principais executivos da China ganharam reputação por sua filantropia individual, especialmente depois que a Ma da Alibaba liderou uma onda de empreendedores para criar fundos privados. Lembrando que os esforços de Pequim para aumentar o risco de caridade têm “o efeito oposto”, reduzindo o “apoio genuíno entusiasmado” e acentuando a filantropia estatal.

“Isso se encaixa com a tendência sob Xi Jinping de reduzir a influência da sociedade civil. O partido está muito desconfortável com o comportamento público independente que fornece bens públicos ou torna o Estado responsável” , diz. “Mas, no final do dia, o principal objetivo do partido é tentar impor seu domínio e controle sobre todos os aspectos da vida na China.”

Para recordar, Pequim já havia lançado uma ofensiva regulatória contra grupos como Alibaba, Didi ou Tencent que causou turbulência nos mercados de ações.

A repressão regulatória de Pequim, que coincide com o aumento da vigilância dos EUA de suas empresas de tecnologia, bem como da Europa, como já destacamos em outros artigos, começou no final do ano passado com o congelamento do IPO do Ant Group, subsidiária de serviços financeiros digitais da Alibaba, que esperava levantar US$ 34,5 bilhões, um montante sem precedentes que teria sido a maior oferta pública inicial da história. No entanto, a operação foi truncada apenas 48 horas antes do sino tocar porque não atendia aos requisitos da cotação dos reguladores, segundo a empresa.

Desde então, seguindo na mesma direção, as autoridades impuseram uma multa histórica de 2,3 bilhões de euros ao Alibaba, o maior grupo de comércio eletrônico do país, por violar regras antitruste. Eles propuseram novas regras para proibir empresas chinesas de Internet com grandes quantidades de dados de seus cidadãos de listagem no exterior, particularmente nos EUA. Eles também alertaram para os perigos dos videogames, que eles passaram a chamar de “ópio espiritual” através da mídia estatal, e anunciaram restrições legais na hora do jogo, bem como medidas para limitar sua atividade entre menores.

E se isso não bastasse, há alguns dias o principal departamento de propaganda do Partido Comunista, que tem controle sobre os livros, filmes e jogos que são lançados, emitiu um novo regulamento para limitar o papel dos algoritmos na distribuição de conteúdo, um movimento que poderia retardar o crescimento de empresas como a ByteDance. proprietário do TikTok, e Tencent.

No total, houve mais de 50 ações regulatórias contra dezenas de empresas por uma ampla variedade de supostos crimes, que vão desde abusos antitruste até violações de dados. A ameaça de proibições e multas do governo pesou sobre o preço das ações das empresas de tecnologia chinesas, que viram bilhões de dólares evaporarem de suas cotações.

De todas as conquistas que a China fez nas últimas duas décadas, a mais impressionante talvez seja ter construído um império tecnológico capaz de rivalizar com o dos Estados Unidos. É por isso que o ataque repentino do presidente chinês Xi Jinping à crescente indústria tecnológica de seu país tem sido tão surpreendente, até mesmo para os próprios investidores com experiência e interesses no gigante asiático.

Quando a China começou sua abertura econômica há várias décadas, concentrou-se no controle principalmente de áreas como finanças, telecomunicações ou energia, e prestou menos atenção à tecnologia. Os pioneiros digitais do país aproveitaram essa falta de regulamentação para crescer rapidamente ao custo de atropelar outras empresas menores ou negar benefícios ao emprego para novos trabalhadores na economia digital. Algo não muito diferente do que aconteceu em outras partes do mundo. E por isso com a transformação digital, o mundo volta sua regulação para as grandes empresas de tecnologia, seja em uma necessária regulação, ou para resolver suas crises fiscais pelo esgotamento do modelo tributário.

Agora o Partido Comunista percebeu que essas empresas se tornaram corporações muito influentes e de interesse próprio, rivalizando até mesmo com as do todo-poderoso Partido Comunista.

O que está em questão agora é se essas empresas estão contribuindo para a criação de uma sociedade mais harmoniosa do que a ocidental, que é o grande objetivo do Partido Comunista, em um momento em que a sociedade começa a perceber as enormes desigualdades geradas por essas empresas.

Enquanto na China absolutamente ninguém replica as decisões do governo, nos Estados Unidos a administração Biden enfrenta litígios, recusas e problemas de todos os tipos para implementar uma mudança que não era apenas parte do programa eleitoral que levou o atual presidente à Casa Branca, mas também tem considerável apoio não só entre seus apoiadores, mas mesmo dentro das fileiras da oposição. Como resultado, alguns, como o investidor e VC Roger McNamee, estão começando a pedir a Joe Biden para tomar uma linha mais dura sobre as big techs se ele quiser restaurar questões fundamentais como privacidade, concorrência ou democracia em si.

Compreender esse futuro é requisito para pequenas intervenções no desenho dele, pois ele é para poucos, é desigual e exige ajustes para que não sejamos atropelados.

O efeito dessa nova economia, está bem destacado na obra, “O capital no século XXI”, do economista francês Thomas Piketty que analisou a crescente disparidade de posses entre uma minoria de muito ricos e o resto do mundo. Nos Estados Unidos, em 2014, o 0,01% mais rico, que consiste em apenas 16 mil famílias, controlava 11,2% de toda riqueza, o que pode ser comparado a 1916, época da maior desigualdade mundial. Hoje o mesmo 0,1% detêm cerca de 22% da riqueza total, o mesmo que 90% de toda população na base da pirâmide, sendo que igual distorção não é muito diferente na Europa.

O progresso implacável da automação, de caixas de supermercado a algoritmos de transação financeira, de robôs em fábricas a carros com direção automática, cada vez mais ameaça a empregabilidade humana no panorama geral. Não existe rede de segurança para aqueles cujas habilidades são obsoletadas pelas máquinas, e nem aqueles que programam as máquinas estão imunes.

Os números mostram que erramos, e é preciso reinventar um universo novo e mais justo de oportunidades para todo, e que elas sejam iguais.

(Artigo publicado no site www.jusbrasil.com.br, em 23 de setembro de 2021.)

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