CHINA, A GRANDE VENCEDORA DA GUERRA

Em meio a troca de ameaças e boicotes concretizados, a China olha tudo de camarote e é grande a possibilidade dela sair ainda mais forte dessa guerra. Apenas o boicote da Ericson e Nokia, sendo por decisão própria das empresas ou por pressão dos governos, a China ficaria livre com 25% do mercado europeu.

Apple, Ford, Nike, Boeing, BP, Shell ou Total são apenas algumas das grandes multinacionais que anunciaram ontem várias medidas de boicote contra a Rússia, em retaliação à sua invasão da Ucrânia.

De fato, a Mesa Redonda Europeia, associação que reúne sessenta das maiores empresas da Europa (incluindo a Telefônica, a Inditex e a Iberdrola), saiu em defesa, sem nenhuma ressalva, das medidas econômicas da União Europeia para deter Vladimir Putin.

Ao mesmo tempo, a União Europeia, em uma medida sem precedentes, aprovou a proibição da transmissão dos canais Rússia Today e Sputnik, devido ao seu caráter como meio de desinformação e propaganda do regime russo.

Neste cenário em que o boicote de tudo o que é russo cresce geometricamente a cada dia de invasão, a indústria de telecomunicações ainda não tomou medidas, o que deve ser tornado público nos próximos dias.

Mas é apenas uma questão de dias, pois sendo um dos setores críticos para qualquer economia moderna, não será nenhuma surpresa que, em breve, as interrupções comecem a ocorrer na cadeia de suprimentos dos principais fornecedores de operadores russos, ou seja, grupos como MTS (com cerca de 80 milhões de linhas móveis), Megafon (71 milhões), Vympelkom (50 milhões) e Tele2 (50 milhões), totalizam cerca de 250 milhões de linhas ativas.

E no mundo das telecomunicações, os principais provedores de rede nesse mercado são a sueca Ericsson (que tem aproximadamente 35% do mercado russo), a finlandesa Nokia (um pouco menos, mas perto de 35%) e a chinesa Huawei (que não chega a 30%), segundo estimativas de consultores como a DellOro, conforme apurou o jornal econômico espanhol Expansion.

Logo, a decisão das duas empresas nórdicas, ambas parceiras da Mesa Redonda Europeia, lembro que pode vir das próprias empresas, forçadas pela opinião pública, como muitas já noticiaram, ou por investidores ativistas; pelos governos locais de seus países ou mesmo por uma decisão política das autoridades europeias, como aconteceu com o caso da Rússia Hoje e Sputnik.

De qualquer maneira, seja por vontade própria ou forçado por decisões políticas de alto nível, a possibilidade de os dois grandes fabricantes ocidentais deixarem o mercado russo é agora maior do que nunca.

E isso significaria deixar o enorme mercado russo para os dois outros grandes fabricantes: a chinesa Huawei e possivelmente a ZTE, que agora está praticamente ausente desse setor.

Essa é apenas uma faceta dos verdadeiros vencedores da guerra: países e empresas que apenas aproveitam a oportunidade, basta ver a vantagem estratégica de países como EUA e Argentina na produção de alimentos durante a segunda guerra mundial.

Dessa vez, em uma economia globalizada e digital, os dividendos chegam bem mais rápido, e a China está preparada para aproveitar muito bem, no velho estilo “bate e assopra”, onde a desgraça do vizinho vira a festa do oportunista.

Segundo levantamento atualizado, na Rússia existem aproximadamente 200 mil antenas de telecomunicações, o que representa aproximadamente um quarto de todo o mercado europeu, de modo que sua perda por fabricantes ocidentais seria um golpe muito duro, especialmente depois de ser praticamente expulso do imenso mercado chinês (2 milhões de sites) devido à decisão do Governo chinês em que, os três operadores chineses são estatais, de aumentar a participação da Huawei para compensar seus problemas fora.

Se este boicote às telecomunicações for consumado, a capacidade competitiva dos dois grupos europeus e suas economias de escala para continuar financiando sua inovação e P&D pode ser comprometida, sobretudo quando comparada ao apoio fechado do governo chinês aos seus fabricantes, que considera a ponta de lança de sua visão de liderança tecnológica global.

Como já havia publicado aqui nesse espaço em setembro de 2021 caminhamos por um mundo dividido em dois polos tecnológicos.

Lembramos que a China é precisamente uma das regiões mais avançadas do mundo no uso do 5G, com mais de 60% da cobertura populacional, em comparação com 45% nos EUA e menos de 10% na Europa. O que representa avanços ainda maiores na sua indústria eletroeletrônica, como no desenvolvimento de carros, caminhões e toda uma série de implementos e sistemas que ganham velocidade com o 5G, o que a guerra está fazendo é ampliara essa vantagem competitiva chinesa.

A guerra atual acentua criação de dois padrões digitais para 5G e 6G, pode estar criando no mundo uma divisão entre a zona ocidental e a área oriental, mais avançada de influência chinesa.

Inegavelmente essa divergência trará uma desvantagem para os usuários ocidentais, pois apesar do pesado investimento em 5G nos Estados Unidos, o ecossistema ocidental no curto prazo não conseguirá acompanhar o asiático, se considerarmos os investimentos em P & D na Ásia.

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