CENTRO DAS CIDADES ABANDONADOS, COMO A TECNOLOGIA PODE REINVENTAR AS CIDADES?

A pandemia acelerou o que já vinha ocorrendo, o redesenho dos centros das cidades, em todo o mundo da Canal Street a Avenida Ipiranga o cenário é muito parecido, um comércio de rua derretendo, a ocupação dos prédios comerciais em baixa e o número de pedintes explodindo.

Esse movimento nas grandes e médias cidades traz o retrato da transformação digital, que coloca o consumo nas telas de computadores e smartphones ao mesmo tempo que permite que possamos de forma hibrida trabalhar cada vez mais em nossas casas. A pandemia apenas acelerou o inevitável, pois as cidades já derretiam sem a compreensão das mudanças econômicas sociais.

Quase sempre o homem olhando para seu umbigo entende que resolvendo o seu problema tudo está resolvido, esquecendo que viver em sociedade implica em compartilhar problemas. A miséria que toma as calçadas fruto do deslocamento e da concentração econômica, é um problema de todos, em maior ou menor grau, tal como a pandemia já nos ensinou é impossível imaginar que uma máscara asséptica de forma isolada nos protege do vírus da Covid. A transformação digital, de forma transversal acelera nossas desigualdades, e assim foi em todo evoluir tecnológico, pois é sempre o grande capital que olha na nova tecnologia uma nova oportunidade, e esse é o papel da sociedade civil organizada, dotar toda a sociedade de instrumentos que tornem esse distribuir renda e oportunidades menos desigual.

São Francisco, Nova York ou Chicago, cujos centros estão passando por fortes mudanças devido à evolução do trabalho de escritório após a pandemia, podem servir de exemplo sobre as tentativas desse redesenho.

Os Estados Unidos são, nesse sentido, um país onde essas mudanças estão sendo vistas de forma muito mais ativa, combinando um mercado de trabalho muito flexível e ativo com uma pandemia que levou muitas empresas a ainda não tentarem voltar aos hábitos de trabalho anteriores no escritório.

A evolução das cidades ao redor de um centro no qual grandes edifícios de escritórios tendem a ser agrupados levou, ao longo do tempo, ao desenvolvimento de serviços associados a essa migração diária de trabalhadores de segunda a sexta-feira. Após mais de dois anos de pandemia, mais e mais pessoas não pretendem trabalhar completamente em um modo distribuído, buscam e assim buscam modelos de flexibilidade na relação de trabalho.

Em muitas cidades, na verdade, tínhamos experimentado um modelo oposto: muitas empresas, diante da dificuldade de se localizar em um centro urbano muito caro, mudaram seus escritórios para a periferia, gerando pressões de deslocamentos diários opostos, e acesso a cidades que entraram em colapso em determinados horários, No estado de São Paulo, Barueri, Embu, e Osasco são ótimos exemplos de empresas que foram pra periferia e criaram um elevado trânsito nos dois sentidos, onde tudo ficou pior ao mesmo tempo.

O que acontece com todos esses modelos quando os hábitos de trabalho evoluem e se tornam progressivamente mais líquidos, mais híbridos e mais flexíveis?

Para muitas empresas, isso significa a urgência de redesenhar seus escritórios seguindo modelos que tendem a ser inspirados pelos chamados terceiros lugares, espaços que não são nem a casa nem o escritório tradicional, mas ambientes do tipo cafeteria com espaço para trabalhar, biblioteca, campus ou coworking em que ambientes propícios à comunicação e ao desenvolvimento comunitário são incentivados,  uma vez que o trabalho que exige especificamente concentração e isolamento é realizado, seguindo as experiências dos períodos de confinamento devido à pandemia, em casa.

Esses modelos híbridos de trabalho também estão determinando que morar no centro das cidades terá, para muitos trabalhadores que antes valorizavam a conveniência de morar perto de seus locais de trabalho, uma atração muito menor. O resultado é que, em muitos casos, esses trabalhadores se deslocam para áreas onde o mesmo dinheiro pode permitir que eles morem em propriedades maiores ou com mais comodidades, que também são compensadas por uma menor frequência de viagens para escritórios que, além disso, permaneceram em muitos casos vazios, pois as novas necessidades determinam uma dimensão significativamente menor:  menos trabalhadores simultâneos, em torno de menos espaços exclusivos.

E logo o que fazer com todos aqueles prédios vazios de escritórios? Essa nova dinâmica que precisa ser compreendida e redesenhada, será feita com a participação de todos, onde os governos tem a primazia da proposta mas precisam estar abertos para construção de sandbox regulatórios, onde todos devem participar.

Mais flexibilidade nos usos do espaço, na remodelação de escritórios para dedicá-los a outros usos, ou no compromisso com dinâmicas que não estão condicionadas ao horário de expediente cada vez mais obsoleto. As empresas que entenderem isso certamente saberão lucrar com essas mudanças.

Lembro que nesse ano no Brasil, a venda de produtos pela internet já ultrapassou as vendas de todos os shoppings e centros comerciais junto, e deve em poucos anos ultrapassar a venda de todo comércio de rua também, mantendo sua velocidade de crescimento.

Pandemia, inflação, e diversos outros fatores, mas algo é claro, todos estamos mais pobres, e todos fomos obrigados a ressignificar nossas aquisições de produtos e serviços, e com isso o comércio de rua tradicional derrete.

O prefeito de Nova York, Eric Adam e o prefeito de São Francisco, London Breed, vem conjuntamente convocando as empresas para que elas e seus funcionários voltem a ocupar o centro das cidades, e certamente o resultado disso será muito pequeno.

Que os prefeitos da cidade estão interessados em preservar a vitalidade econômica de seus centros comerciais e distritos financeiros parece fácil de entender, mas, por outro lado, será difícil para os trabalhadores assimilarem esse retorno, quando por mais de dois anos no caso de muitas empresas nos Estados Unidos, tiveram tempo não só para verificar as vantagens óbvias de não ter que suportar um engarrafamento todas as manhãs, mas também para torná-lo um hábito.

Por mais que o costume tenha nos levado a pensar, por gerações, que nossa maneira de pensar sobre as cidades e nossos hábitos de trabalho nelas eram algo razoável, a realidade é que não é de todo. Reunir trabalhadores em uma área específica para a qual eles têm que fazer uma peregrinação todas as manhãs, com um cronograma fixo que causa todos os tipos de engarrafamentos, para realizar tarefas que, na realidade, eles podem fazer, como vimos há mais de dois anos, de qualquer outro lugar, é algo que não tem justificativa. Argumentar que a razão para voltar a esses hábitos é a recuperação do comércio local, restaurantes, lanchonetes, lavanderias ou empresas que viveram desses trabalhadores é completamente questionável, pois a partir de um raciocínio já falho em seu início.

Nas grandes cidades, há muitos trabalhadores que simplesmente se recusam a voltar à forma como trabalhavam antes da pandemia. Quando você passou mais de dois anos demonstrando que pode trabalhar de forma mais eficiente de casa ou de outro lugar, que você não precisa passar pelo martírio de engarrafamentos, e que você pode comer em casa ou onde quiser sem ter que ir aos restaurantes no centro da cidade ou reaquecer a comida que você tira de casa recheada em um recipiente plástico, a ideia de regredir e voltar ao que você fez antes é simplesmente absurda.

Em fevereiro a Amazon anunciou o fechamento de suas 68 lojas físicas que operavam com as bandeiras Amazon Books, Amazon Pop-up e Amazon 4 estrelas, experimentos que a marca desenvolveu ao longo dos anos, para se concentrar em seus supermercados, que vendem o que as pessoas compram muito pouco na internet, como os seus supermercados Amazon Go, Amazon Fresh e Whole Foods Market.

Evidentemente, que o fechamento não impacta especialmente as contas da gigante da distribuição: estima-se que o volume de negócios dessas lojas, que alguns descreveram como meros experimentos, foi de apenas 3% dos US$137 bilhões milhões de dólares de faturamento da empresa só no último trimestre, mas eles permitem fazer algumas reflexões sobre as decisões de uma empresa que, depois de ter causado direta ou indiretamente o fechamento de muitas lojas de todos os tipos ao redor do mundo, experiências pra ela servem para entender hábitos, desenvolver novos fornecedores e aperfeiçoar sua forma de vender.

Lembro que quando a Amazon anunciou a abertura da Amazon Books em 2015, muitos levantaram o quão interessante era que a empresa, em vez de descartar completamente a venda de livros em lojas físicas, experimentasse a ideia de manter esse canal. Alguns até usaram o caso como prova de que a distribuição física em algumas categorias de produtos não estava morta, e é por isso que a Amazon ainda estava apostando nele.

Essas lojas eram relativamente pequenas, mas nelas você podia ver, por exemplo, experimentos com recomendações e avaliações, com seleção de estoque, ou com promoções cruzadas com o canal online.

A tecnologia ganha espaço com a ampliação de smart locker para entrega de encomendas em supermercados, farmácias, terminais de ônibus, isso diminui a circulação de veículos de carga por toda cidade, torna o ar melhor e o frete com menor custo. Reduzindo significativamente o volume de veículos de entregas nas cidades, com viagens mais concentradas, afinal o comércio de rua vem dando lugar as vendas online e com isso ampliando o número de veículos de entrega circulando em nossas cidades. O que só contribui para a qualidade de vida nas cidades.

Não será com cada um olhando para o seu umbigo que as cidades serão reinventadas, isso apenas ampliará o problema, repensar cidades, é uma tarefa do coletivo, que deve se basear na ciência, com o exercício democrático de estudar a todos, que mais do quem nos bairros moramos nas cidades.

O papel da tecnologia é enorme, pois ela registra e amplia a leitura dos dados que contribuem nesse redesenho e é ela que democratiza as soluções que podem estar em uma melhor utilização de equipamentos e espaços públicos registrados em nossos celulares.

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