CANDINHA, E A FOFOCA NAS REDES SOCIAIS

Em 1965, Roberto Carlos e Erasmo lançaram os mexericos da Candinha, e a julgar pelo que vemos nas redes sociais, a letra nunca esteve tão atual, ou profética, ou apenas um retrato da pobreza espiritual das mentes desocupadas, que escolhem se ocupar da vida alheia, que dos outros tudo “pensam saber”, e que cuidam muito pouco das suas vidas, ou acreditam que cuidar da própria vida seja algo menos interessante, fazer o que?

Em letra hilariante o Rei já dizia:

“Olha o que a Candinha está falando aqui

Puxa, mas como fala

A Candinha vive a falar de mim em tudo

Diz que eu sou louco, esquisito e cabeludo

E que eu não ligo para nada

………

Acho que a Candinha gosta mesmo de falar

Ela diz que eu sou maluco

E que o hospício é meu lugar

Mas a Candinha quer falar

A Candinha quer fazer da minha vida um inferno…”

A letra é uma perola e continua atual catalisada pelas redes sociais, onde as novas Candinhas, e olha que não são poucas, sabem tudo da sua vida através das suas curtidas, comentários e compartilhamentos, elas acreditam que podem analisar sua vida na profundidade de uma curtida, “pobre dos algoritmos”.

Em que pese o lirismo da letra e dos acordes musicais, as redes sociais ampliaram o tempo que as pessoas dedicam suas vidas à cuidar da vida alheia, como se já não fosse uma tarefa difícil cuidar da própria vida e os desafios. Eu sempre creio que só o vazio interior me leva a preencher meu tempo cuidando da vida dos outros, “pronto falei”.

Uma pena, afinal todo esse uso intensificado dos nossos inúmeros aparelhos (Celulares, Notebooks, Computadores, Tablets, etc.) e que se intensificou durante a pandemia, só ampliou nossas dúvidas sobre o uso intenso desses equipamentos e seus possíveis malefícios a saúde, tanto da saúde física com psíquica, pois cuidar da vida alheia dá um trabalho danado, pois exige tempo e uma nefasta criatividade.

Quase sempre todo esse tempo dedicado a produção de delírios e maldades da vida alheia afetam a saúde, e principalmente o sono.

Uma reportagem de Bruna Arimathea no Jornal Estadão, classificou esses aparelhos como inimigos do sono. Na reportagem com diversos depoimentos as pessoas relatam sua dificuldade de dormir devido ao aumento da jornada de uso desses aparelhos, seja pelo home office, pelas videoaulas dos filhos que acompanhamos, ou por nossa maior participação nas redes sociais decorrentes da quarentena, o fato é que o uso dos dispositivos aumentou para todos, e mais ainda para as “Candinhas”.

Se o impacto da tecnologia na qualidade do sono já era estudado antes da pandemia, com ela ele ganhou o centro das atenções. Em um estudo conduzido pelo Sergio Brasil Tufik, pesquisador do Instituto do Sono de São Paulo, constatou-se que durante a pandemia, o uso de tecnologia fez com que cerca de 64% das pessoas relatassem uma demora de 30 minutos ou mais para adormecer, se comparado à rotina antes da pandemia, sendo que no total, 81% dos brasileiros sentem alguma dificuldade para dormir desde que a crise sanitária começou.

A mesma pesquisa destaca que 55,1% dos brasileiros relataram uma piora na qualidade do sono no último ano e mais de 60% afirmam que o uso de tecnologias como celular e redes sociais tem colaborado para esse índice. Números que levam o pesquisador concluir que “a nossa sociedade vem caminhando para a privação de sono, muito por causa dos dispositivos eletrônicos. Com smartphones conectados o tempo inteiro, raramente as pessoas conseguem dormir tanto quanto gostariam. A pandemia veio para intensificar esse processo”.

Ao mesmo tempo a falta de atividade fora de casa também serve como combustível para inúmeras consultas ao smartphone, basta ver no seu celular o relatório de tempo de uso do dispositivo que isso vai lhe permitir o quão escravos de nossos dispositivos nos tornamos.

Para os especialistas ouvidos na reportagem o efeito é imediato no organismo: o vício em telas atua na diminuição da melatonina, um dos hormônios responsáveis pela manutenção do sono e pela sensação de descanso, a luz é um inibidor do hormônio.

Sendo que “a iluminação diz para o nosso cérebro que é dia, e nosso organismo não se prepara para dormir. Na pandemia, as pessoas já vivem uma condição de alerta constante, então o uso prolongado desses aparelhos à noite induz a queda ou até mesmo a inibição completa da produção de melatonina”, afirma Luiz Gustavo de Almeida Chuffa, pesquisador do Instituto de Biociências da Unesp.

A entrada mais intensa nas redes sociais também traz prejuízos a nossa saúde, pois as redes sociais também desempenham um papel importante na piora do sono. Mais do que a luminosidade, o mecanismo neurológico de “recompensa” por ver uma foto, por exemplo, ou por encontrar um produto desejado, estimula receptores de atenção, afirma Monica Andersen, diretora de ensino do Instituto do Sono. A química que acontece no cérebro deixa os usuários em estado de alerta. A pesquisadora conta ainda que existe um segundo fator relacionado a redes sociais que pesa contra o sono: a produção de cortisol. Esse hormônio, produzido em situações de estresse, aparece também quando você vê conteúdos que não são do seu agrado. Sejam notícias sobre a situação do País, fotos de amigos que estão viajando (enquanto você fica em casa), ou saborosas fofocas da firma – tudo isso ajuda o cérebro a mandar o sono embora.

“As redes sociais promovem uma gratificação ao cérebro quando você busca algo no feed e encontra. Mas, quando a resposta não era a que você queria, isso vira um dilema. A gente tem uma situação comparativa nessas plataformas, entre a imagem do outro e a nossa. Isso gera uma expectativa não necessariamente prazerosa. A comparação aumenta o cortisol, o que causa um estresse associado às redes sociais, promovendo um hiper alerta”, explica Monica.

Dessa maneira ausentar-se das redes sociais algumas horas antes de dormir pode ajudar a diminuir o nível de cortisol, além de poupar a exposição da luz azul. Fazer exercícios físicos durante o dia também é uma das recomendações, já que a produção da serotonina, conhecida como o hormônio do prazer, está associada também aos níveis de melatonina no cérebro.

Mas a culpa está na tecnologia ou no seu uso?

Tecnologias são desenvolvidas, popularizadas, usamos, nos adaptamos a elas, ponto final. Não há mais drama. Sempre haverá histéricos que tentam atribuir a cada nova tecnologia muitos efeitos colaterais, problemas e até mesmo distúrbios e doenças, mas a grande verdade é o que é: nada nunca acontece. A espécie humana é diferenciada por sua capacidade de se adaptar às mudanças no ambiente, razão pela qual se tornou a colonizadora mais eficiente do planeta, sem que possamos dizer, infelizmente, que essa circunstância tem sido positiva para o planeta. Se uma tecnologia nos dá algo que percebemos como um benefício, nós a adotamos e a usamos, sem que ela nos faça viciados ou doentes, não mais do que algumas pessoas insistem em nos convencer do contrário.

O smartphone chegou em 2007, e rapidamente se tornou uma das interfaces mais comuns para se relacionar com todos os tipos de informação. Imediatamente, muitos insistiram em procurar relações com todos os tipos de transtornos, desde déficits de atenção até problemas de visão, passando por depressão, obesidade, distúrbios do sono, obsessões de todos os tipos e até suicídios.

Se antes elas ficavam nas janelas de casa na narrativa da vida alheia, hoje as “Candinhas” ficam nas janelas das redes sociais, destinando seu tempo e a sua maldade, vendo a vida dos outros passar, na pobre narrativa dos miseráveis de espírito, independentemente das suas contas bancárias.

Pobre Candinha, que ainda não aprendeu que a riqueza da história nasce do nosso protagonismo nela, no que fazemos e do tempo que dedicamos a escrever boas e belas páginas ao longo dela…Quanto aos outros, bem os outros são apenas os outros.

Sejamos felizes, com cada um cuidando da sua vida, deixando adormecido o diabo que vive nas redes sociais, soprando em nossos ouvidos essa vontade de cuidar da vida alheia.

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