BRUSHING, AS SEMENTES DA CHINA E NOSSA CHINOFOBIA

Nas últimas semanas cerca de 23 estados relataram casos de recebimento de pacotes com sementes misteriosas, todas originárias da Ásia, de lugares como Malásia, Hong Kong e China, em decorrência disso, diversos noticiários e também nas redes sociais repercutiu a história sobre a misteriosa encomenda recebida por mais de 200 pessoas, esse fato inusitado colocou os brasileiros em alerta, com muitas perguntas e é claro, com muitas teorias da conspiração, afinal, essas sementes representam um risco? Qual a razão de isso estar acontecendo?.

Segundo o MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), cerca de 200 amostras já foram recolhidas para análises, sendo que parte dessas amostras, 147, foram enviadas ao Laboratório Federal de Defesa Agropecuária em Goiânia, até ontem sem resultados conclusivos ainda.

Preventivamente o Ministério da Agricultura emitiu um alerta para os cidadãos que receberam essas sementes misteriosas não efetuarem seu plantio, pois, o principal risco é que as sementes contaminem e prejudiquem as plantações e lavouras brasileiras, desequilibrando o cenário agrícola do país.

Essas mesmas sementes foram enviadas para outros países além do Brasil, como Austrália, Nova Zelândia, Índia, Polônia, Alemanha, França Holanda, Reino Unido, Irlanda, Chile e Canadá que relataram ter recebido as “sementes”. Logo, é claro que está completamente descartado a possibilidade de agroterrorismo, ou bioterrorismo como suspeitaram algumas mentes criativas de plantão.

Tudo conduz para um caso de brushing, tanto que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (do inglês, USDA) apontou que um esquema de fraude virtual pode ser responsável pelos inúmeros casos de envios indesejados. No universo digital a tática é chamada de “brushing”, que em tradução literal seria (algo como “varrer” ou “espalhar”, em inglês).

E como funciona isso? Funciona por meio de contas falsas criadas em sites de vendas internacionais, como o Aliexpress, eBay e Amazon, com dados furtados de usuários ao redor do mundo (e lá vamos nós para a LGPD e para o RGPD). Na sequência os golpistas efetuam compras nas suas próprias lojas, utilizando as contas falsas para escrever boas avaliações pós-venda (feitas por eles mesmos) e assim subir no sistema de posicionamento dos sites. Para não sair no prejuízo econômico, os vendedores enviam sementes aos clientes fantasmas e, assim, não levantam suspeitas na moderação das empresas, com esse movimento o algoritmo de busca coloca os mesmos em posições melhores dentro do Marketplace e assim na sua procura pelo real produto que eles de fato vendem, aparecendo melhor no ranking.

A preocupação maior do Ministério da Agricultura, sempre é com uma eventual contaminação das lavouras brasileiras com pragas, preocupação que já está estampada em todas as declarações que os passageiros emitem quando retornam de viagem do exterior. O controle biológico é sempre uma preocupação no mundo todo, pois espécies de plantas e de animais trazidos de outros países sempre ofertam risco a fauna e flora local. Em Itapetininga, interior de SP, uma moradora afirmou que a sua gata morreu após comer as folhas das sementes misteriosas que plantou em um vaso. Nada ainda comprovado por exames.

Nos demais países o número de casos é bem maior, como nos Estados Unidos, onde as investigações estão mais avançadas e onde já foram identificadas pelo Departamento de Agricultura americano (USDA, em inglês), cerca de 300 tipos de sementes.

Até o momento nenhuma autoridade nacional bateu o martelo sobre a intenção de quem enviou as sementes ao Brasil e outras partes do mundo. Tudo indica que é “brushing”, mas a suspeita de bioterrorismo ou contaminação não foi totalmente descartada (isso aqui no Brasil, ao contrário dos EUA), ainda que a própria Embaixada da China no Brasil tenha alertado sobre indícios de fraude das etiquetas de endereçamento

Nos marketplaces os compradores têm muita voz e fazem parte da base de dados estatísticos, se muita gente compra, muita gente avalia, “ganha mais destaque quem tiver mais avaliações”, declarou Hiago Kin, presidente da Associação Brasileira de Segurança Cibernética, em entrevista ao UOL.

É de se destacar que no geral, esses sites possuem validadores que cruzam outras informações para saber se as avaliações feitas pelo consumidor são verdadeiras. Por isso, a fraude para funcionar, usa dados de pessoas de verdade, assim os golpistas criam um perfil fake usando endereço e outros dados reais, eles conseguem validar a compra, mas não foi o dono dos dados quem comprou e avaliou o produto, ou seja, novas fraudes para esse mundo digital cada dia maior no pós pandemia.

Ainda segundo Hiago Kin “a fartura de acesso aos dados, nada disso é novo. No Brasil, este tipo de fraude está começando agora, mas isso acontece há anos em marketplaces como Alibaba e Ebay, que já lida com o brushing há mais de 12 anos. Antigamente tinha gente que recebia caixas cheias de isopor com algum peso em casa, agora estão usando sementes porque, provavelmente, alguém por lá teve essa ideia”, diz. Esses lojistas mal intencionados pegam dados verdadeiros de quem já comprou pela internet, geralmente vazados e disponível para compra na deep web (sites que não aparecem nas buscas). Para você ter uma ideia, calcula-se que 1,4 bilhão de logins e senhas de serviços como Netflix, LinkedIn, Minecraft e Badoo já foram expostos.

Por certo a LGPD é arma contra brushing, mas estamos ainda engatinhando e evidente que é bem difícil essas pessoas lá do outro lado do mundo cumprirem a nossa legislação.

Esse esquema de fraudes brushing, que inicialmente era despretensioso, já havia sido reportado pelo Wall Street Journal em 2015. A prática tomou grandes proporções e culminou nos indesejados envios multinacionais, que não intencionalmente oferecem riscos à flora nativa dos países destinatários, como no recente caso das sementes vindas do oriente.

Nesse caso chama a atenção a quantidade de teorias malucas da conspiração, anabolizadas por esse período de pandemia dentro de uma extremada guerra comercial entre China e EUA, logo, as pessoas ao invés de aprofundarem em suas pesquisas, tratam de escolher um lado bom e um lado mal e se comportam como torcedores fiéis. Alimentando um sentimento que interessa e muito aos EUA, uma Chinofobia.

Chineses são estratégicos sim, possuem políticas de Estado e não de Governo sim, são resilientes e determinados sim, mas daí a dar vazão as engenhosas teorias da conspiração que não param em pé com duas perguntas, tenha santa paciência.

É um mundo novo e muitas vezes delirantes onde as pessoas não estão em busca da verdade, mas sim em provar a sua versão, ainda que ela esteja anos luz da verdade.

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