BEREAL, UM INSTAGRAM SEM FILTRO?

Na disputa da fogueira das vaidades das redes sociais, vem ganhando espaço nesse ano a BeReal, a rede social da moda: mais autenticidade, mais interesse, mais mentira? Mais do mesmo?

A plataforma, que tem experimentado um crescimento de 315% desde o seu lançamento, tenta compensar os excessos estéticos do Instagram com imagens mais improvisadas e cruas.

Muitos entendem que a BeReal é a plataforma de moda no mundo saturado das mídias sociais e da economia da atenção(desatenção). Criado em 2020 por Alexis Barreyat, um empresário francês de 25 anos cansado dos “excessos do Instagram”, este app quer convencer as pessoas de que, mais do que a estética digital calculada dos últimos anos, o que vale a pena compartilhar é a realidade como ela é, sem filtros. Mas quantos querem uma vida sem filtro nessa ditadura estética das redes sociais?

E como funciona a BeReal?

Todos os dias, seus usuários recebem uma notificação: eles devem postar uma foto tirada com a câmera frontal (o que você está vendo) e frente (como você olha) e eles têm dois minutos para fazê-lo. O alerta é imprevisível, então eles tentam incentivar a autenticidade digital. Além disso, os usuários só podem ver as histórias de seus amigos depois de publicar a deles, ou seja a rede é uma corrente que não pode ser rompida. Apesar de sua simplicidade, para muitas pessoas ela se tornou um ingrediente indispensável de sua dieta digital.

Segundo a Apptropia, a rede social teve um crescimento de 315% no ano passado, e atualmente é a mais baixada da App Store nos Estados Unidos, país onde tem mais usuários.

Como o público acostumado com Facebook, Instagram, WhatsApp e TikTok vai reagir?

Primeiro é bom dizer que o que a BeReal fez tão bem sugere o poder de uma ideia simples: que as mídias sociais podem ser um verdadeiro reflexo de quem somos, um espelho virtual. É uma ideia quase tão antiga quanto as próprias plataformas. Sua história, de fato, tem sido marcada pela tensão entre naturalidade ou artifício; entre ser fiel à nossa personalidade offline ou projetar uma imagem aspiracional para ser mais atraente aos olhos de uma família e público estrangeiro. O que lembra aqueles desafios de postarmos fotos sem filtro? Sem maquiagem? Incrível mesmo, mas isso tornou-se um desafio.

O Facebook, a rede social por excelência, triunfou na segunda metade dos dois mil graças ao compromisso de Mark Zuckerberg, seu fundador, de conectar relacionamentos existentes no mundo offline, uma estratégia que ele havia usado anteriormente com o Facemash, seu antecessor, mostrando até onde as pessoas estavam interessadas na vida das outras.

Com o tempo e com a competição do vizinho e dos amigos, era necessário ficar ainda melhor então nasceram os filtros, pois a realidade pode ser muito dura, e logo circulam diariamente por nossas redes sociais verdadeiros avatares de si.

Apesar das críticas, o Facebook tinha mais de 600 milhões de usuários ativos no final de 2010, mais do que a população dos Estados Unidos e da Indonésia, o terceiro e quarto países mais populosos do mundo em 2010, combinados. Seu sucesso inspirou Kevin Systrom, que lançou o Instagram em 2010 para compartilhar fotos quadradas que incluíam algo novo: editar filtros. Ele embelezava a realidade com o golpe dos filtros. E logo esses filtros fizeram do Instagram um lugar onde as pessoas aprenderam que tudo o que postaram poderia parecer mais perfeito do que a realidade.

Diferentemente do Instagram, na BeReal não é possível fazer curadoria ou editar fotos para publicar. A proposta é capturar momentos corriqueiros da vida cotidiana, em contramão ao que acontece no Instagram e no TikTok, e fugir de “manipulações” virtuais. As imagens capturadas pelos usuários também não ficam registradas em um feed, já que tudo desaparece.

Ainda que seja possível adicionar amigos na rede, não existe uma contagem numérica de “seguidores” ou curtidas, embora dê para reagir a publicações através do “RealMoji”. São seis opções disponíveis: um polegar para cima, um rosto chocado, um rosto sorridente, um rindo e outro chorando. A diferença, aqui, é que o usuário precisar tirar uma selfie para reproduzir as expressões do emoji que escolher. Na BeReal não há espaço para influenciadores, como o próprio app indica na loja de aplicativos.

O fato é que passamos a conviver com a “estética do Instagram”, onde a sua vida está em permanente edição.

Os filtros não serviam apenas para adicionar um toque vintage ao sorvete fotografado, mas também permitiam alterar as características faciais, aumentando os lábios e esticando as sobrancelhas. Nasceu a era do Instagram Face, como definiu a crítica Jia Tolentino, um ideal inatingível (e não pouco racista) que acabou afetando a saúde mental de quem cresceu com ela, e que já destaquei alguns dos transtornos em outro artigo.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo The Wall Street Journal no ano passado: Entre adolescentes que relataram pensamentos suicidas, 13% dos usuários britânicos e 6% dos americanos associaram o desejo de suicídio ao Instagram.

Mas o que é belo? Por quanto tempo o que é belo hoje permanece na velocidade conceitual e mercantilista das redes sociais?

Diariamente e de forma intensa, abrimos nossos celulares e nas diversas redes sociais que nós e nossos filhos frequentam nos deparamos com aquela pessoa que tem uma imagem escultural, uma perfeição, seja pelos filtros, academias e outros aplicativos que tornam muitos e suas publicações, verdadeiros avatares.

Quantos encontros já foram marcados pelos aplicativos de namoro com pessoas bem diferentes das suas fotos de perfil?

Quando a convivência com esses perfis se torna diárias para jovens e crianças estabelecemos um padrão ditatorial de estética, afinal mais likes geram mais publicações nos feeds e mas comentários geram dentro da economia da desatenção mais visualizações.

Assim jovens e adultos viram prisioneiros de estereótipos estéticos quase que inatingíveis. Vamos ao espelho, nos comparamos numa obrigação estética que é imposta pela ditadura dos algoritmos de atenção, e que muitos de nós republicamos com filtros e outros “avanços” tecnológicos pra ficarmos mais próximos das novas referências.

Nesse momento a busca por uma identidade autêntica nas redes sociais é um mero oximoro, uma contradição, como Jia Tolentino escreveu em Trick Mirror: Reflections on Self-Illusion. Poucas pessoas estariam interessadas em assistir Sleep, o célebre filme de Andy Warhol que mostra um homem dormindo por mais de cinco horas, se fosse transmitido nas redes sociais. “Se todos tentam ser perfeitos, a única maneira de se destacar é tentar não ser”, argumenta Frier. “Tudo o que fazemos na internet, fazemos reconhecendo que ele será consumido e julgado por outros.”

Quanto de autenticidade estamos interessados nessa vida digital, nas muitas bolhas da nossa sociedade?

Agora, no entanto, ele vê as costuras para a invenção. “Eu gostaria que as pessoas esperassem para postar até que estivessem em um lugar mais interessante, porque estou cansado de ver todo mundo sentado em sua mesa”, reclama Poblete.

Nos últimos tempos, o Instagram e outras redes sociais têm recebido duras críticas,  em parte pelo algoritmo, e outra pela maneira como muitos as utilizam, em tese exibindo apenas o melhor de si, com muitas camadas de edição.

Mas afinal qual a razão que nos faz entrar em uma rede social?

Encontrar amigos? Fazer novas relações? Divulgar um trabalho? Mostrar aos outros como estamos, ou como nos sentimos? Qual a nossa necessidade de estar em uma rede social?

Na lógica da economia de retenção da nossa atenção, o universo corporativo descobriu que podemos ter e fazer parte de diversas redes sociais, e cada qual com sua mensagem e público destinatário, das que valorizam fotos, a outras utilizadas para falarmos mais dos nossos avanços profissionais, bastou entender que o produto é a nossa atenção, que se converte em dados e que por sua vez se converte em mais atenção ainda no vicioso círculo da lógica da atenção, que pretende sugar nosso tempo, nossos dados e produzir como resultado mais desatenção, ao ponto de sabermos mais dos distantes do que dos nossos amados  que estão bem próximos.

A loucura é tamanha que sabemos onde o nosso vizinho jantou na noite de sábado, quem ele encontrou, mas somos muitas vezes incapazes de saber o que nossos filhos fazem nesse exato momento em seus universos paralelos que chamamos de celular.

Se a informação é útil ou não, se é a mais pura verdade ou não, isso só importa se alguém reclamar ou se houver risco de uma demanda judicial, até lá se postam fotos e mais fotos.

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