AUTIBANK E O COMPLIANCE NO MERCADO FINANCEIRO

Nesse momento centenas de clientes da empresa Autibank espalhados pelo Brasil vem afirmando que sofreram prejuízos de milhares de reais devido a promessas que não teriam sido cumpridas pela companhia.

Em que pese, se auto-denominar comercialmente como um banco, um primeiro traço que indica não ser boa coisa, Autibank, não é uma instituição financeira regulada pelo BC (Banco Central), e nos últimos tempos, em uma conduta muito comum no segmento de captação de poupança popular, ganhou destaque nas mídias sociais, com o patrocínio de shows de artistas famosos como Gusttavo Lima, Leonardo e Bell Marques. Logo vai a primeira dica, verifique com calma onde a instituição que você vai colocar seu dinheiro está inscrita.

Segundo o Ministério Público do Ceará, na sua denúncia apresentada no ano passado, a conduta da empresa, consistia em orientar as pessoas a tomar empréstimo consignado ou pessoal em instituições financeiras tradicionais e fazer o repasse integral desses valores para o Autibank. Algo inusitado, e vai a segunda dica, quando algo é muito diferente de tudo que você já viu no mercado, seja mais cauteloso, desconfie e estude com calma.

O Autibank prometia garantir a quitação da dívida, acrescida de uma taxa de retorno que geralmente começava em torno de 1% ao mês, mas que poderia chegar até 4,5% mensais, de acordo com relatos e BOs (boletins de ocorrência) registrados contra a empresa.

Segundo o material de divulgação da empresa, o retorno que ela prometia se daria por meio de investimentos na Bolsa de Valores, em fundos internacionais e em títulos do governo, ou seja todos investimentos que devem sempre serem feitos por meio de um agente financeiro credenciado junto ao Banco Central. Logo vai a terceira dica, qual a razão de só essa empresa oferecer esse produto?

Com esse discurso, milhares de pessoas que hoje acusam a empresa, e que na maioria deles é composta de aposentados ou servidores públicos federais, com potencial para fazer empréstimos de valores elevados, investiram suas reservas ou fizeram empréstimos com a intenção de ganhar sobre o valor do empréstimo nessa “pretensa aplicação financeira”.

Como estratégia os funcionários do Autibank entravam insistentemente em contato por telefone oferecendo o “investimento”, inclusive com visitas na casa das pessoas e convites para conhecerem a sede da empresa na cidade.

A Promotoria cearense na sua denúncia, disse que a empresa se comprometia a devolver 10% do valor, em algumas parcelas, além de quitar os empréstimos.

Como crónica de uma morte anunciada, o Ceo da empresa alega que está negociando recursos com fundo árabe “sempre mantido em sigilo é claro”. O mesmo alega que o Autibank tem passado por uma série de dificuldades financeiras, mas diz que está em busca de soluções para conseguir honrar com os compromissos firmados junto aos clientes. Esse parece ser um filme repetido, porém com a anabolizada das redes sociais.

As desventuras vividas nos últimos tempos, com esse esperado fim, nos obrigam a refletir sobre o compliance nos investimentos, e a facilidade de captação da poupança popular sempre com a promessa de lucro fácil.

Como um filme que se repete, atores contratados a peso de ouro transferem a sua credibilidade, veículos de mídia tradicionais ou através da mídia digital, divulgam de forma maciça, e investidores atrás de lucros fora do convencional colocam o que tem e até o que não tem.

A história, e as formas em que o mercado foi ou pode estar sendo “ludibriado” mais parece roteiro de um filme, repetido é claro, daqueles que descrevem situações tão insanas, que você parece estar lendo um romance e não a narrativa de um escândalo corporativo onde o Compliance parece ter dormido em berço esplêndido no leito da conivência de muitos interessados.

Lembro que grandes golpes parecem seguir uma receita de bolo, e logo com grandes investidores se juntam profissionais de sucesso em outros ramos, como o artístico, disposto por um bom cachê a emprestar à sua credibilidade ou popularidade para produtos suspeitos.

É claro, que a grande maioria dos empreendedores não são “vendedores de fumaça”, embora possa haver também fatores externos ou de competência na condução do processo podem mudar o resultado.

A grande maioria dos empreendedores, não engana seus acionistas ou seus clientes, pois tendem a pensar no longo prazo, embora muitos acabem vendendo sua empresa quando consideram que seu ciclo foi cumprido ou surge uma oportunidade interessante para isso.

Otimismo exagerado O lema ‘finja até conseguir’ é um hábito que ajudou a criar gigantes inovadoras como Google e Apple, mas que muitas vezes pode deixar milhares de vítimas no caminho.

Por vezes a conivência e a boa vontade em exagero cria distorções e como consequência prejuízos aos investidores dessas empresas. O compliance precisa ser aperfeiçoado constantemente, mas ele não é suficiente para abrir os olhos daqueles que não querem ver.

Muitos negócios, considerados pirâmides, estão sendo investigados mundo afora e o tempo e a oportunidade de ganho fácil atrai todo os tipos de golpistas.

No caso do Autibank, foi criada imagem parecida com a de um banco Em seu site, ele se apresenta como uma conta digital 100% gratuita. “Unimos a segurança e tradição das agências físicas com a inovação e tecnologia das contas digitais”, diz o texto.

A página também apresenta imagens de supostos cartões do Autibank com o logo da bandeira Elo, controlada por Banco do Brasil, Caixa e Bradesco, algo já desmentido pela Elo que afirmou não possuir acordo comercial com o Autibank.

Tendo iniciado as suas atividades em meados de 2019 no Rio de Janeiro, a empresa que diz atuar no ramo de serviços financeiros chegou a abrir filiais em dez capitais, com uma das sedes na avenida 9 de Julho, em região nobre de São Paulo. Sempre com o propósito de criar uma imagem de credibilidade.

Como os golpes já praticados por outros semelhantes, o Autibank geralmente cumpria com as obrigações assumidas nos primeiros meses após a assinatura dos contratos, mas que os pagamentos, bem como os contatos com funcionários da empresa, cessavam pouco tempo depois.

Muitas vítimas foram atraídos pelos shows de artistas famosos e pela abertura de agências em capitais, e não desconfiaram da promessa de rendimento em torno de 2% ao mês. Cerca de um terço do valor chegou a ser quitado, mas desde o final de janeiro que não há qualquer pagamento por parte da empresa.

Em setembro de 2021, o Autibank chegou a se filiar junto à Febracon (Federação Brasileira dos Correspondentes Bancários), mas em dezembro a empresa foi descredenciada, por não ter apresentado os documentos solicitados, que pudessem comprovar a relação da empresa como correspondente bancário com qualquer instituição financeira que fosse.

A economia digital é um terreno fértil para esse tipo de golpe, pois estamos nos acostumando às relações bancárias sem agências e sem qualquer contato com o gerente para o tradicional café, e é nesse modelo flexível e disruptivo que nasce um cenário perfeito para esses acontecimentos, com prejuízo para milhares de pessoas.

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