ASIMOV E A REDEFINIÇÃO DA FICÇÃO CIENTÍFICA

Isaac Asimov, um nome que dispensa apresentações, com mais de 500 livros atribuídos a ele, pode-se ter uma ideia da capacidade mental e de trabalho deste autor que também trabalhou como professor de bioquímica na Universidade de Boston? Reverenciado e considerado um dos pais fundadores da ficção científica moderna, Asimov, com sua aparência singular, um professor universitário russo escrevendo romances de ficção científica, era um personagem muito reconhecível. Dez anos após sua morte, em 1992, sua família revelou que o autor havia recebido na época uma transfusão de sangue contaminada pelo HIV, mas que o obscurantismo e o estigma que cercavam tudo relacionado à AIDS o levaram a não torná-lo público. Algo que, para um homem da ciência como ele, muito beligerante com superstições, não tinha que ser nada agradável.

‘O Bom Doutor’. Além de ‘Fundação’, Asimov criou as Três Leis da Robótica em seus contos e romances, abordou viagens no tempo e dilemas sobre tecnologia e política.

E a recente série de TV, pra lá de pretensiosa, baseada na sua obra “Fundação”, é mais uma referência a ousadia, afinal, a maioria dos dramas de TV tenta contar histórias ao longo de alguns anos com talvez meia dúzia de personagens centrais. A nova série Foundation (Fundação) é um pouco mais ambiciosa, aborda 400 anos e 25 milhões de mundos. A construção de um mundo é uma coisa. Foundation, um projeto de quatro anos já disponível na Apple TV+, é a construção de uma galáxia, um exagero e uma clara ousadia.

Os textos de Asimov encontram milhões de fãs e leitores vorazes no mundo afora, por muitas gerações.

Fundação inclui tanto textos curtos que apareceram na década de 1940 quanto os volumes que o autor russo publicou nos anos 80. A trilogia chamada Império ou os 37 contos e 6 romances de Robô, também de Asimov, pertencem ao mesmo universo imaginado por ele e levado várias vezes para a tela.

Curiosamente, na base da Fundação está uma ciência inventada: psicohistória, uma mistura de história, sociologia e matemática que permite que previsões em larga escala sejam feitas. Esses cálculos, precisos e místicos ao mesmo tempo, são o que preveem a queda do Império Galáctico (sim, como em Duna) com o qual a Fundação começa. Porque então será uma fundação que terá a ambiciosa missão de preservar o conhecimento humano necessário para recomeçar e, aliás, fazer melhor.

Duas temporadas depois e com uma pandemia global no meio, o primeiro trailer de “Fundación” chegou e os fãs respiraram um pouco mais calmos: o que se viu foi majestoso, épico e, embora isso já fosse dado como certo, muito caro.

Com o lançamento da Fundação muitas das dúvidas sobre a adequação foram dissipadas: a série não só parecia tão majestosa quanto seu trailer, mas decisões claras do roteirista de televisão foram apreciadas nele. A intrincada, filosófica e sinuosa literatura de Asimov nas mãos de Goyer tornou-se uma série acessível sem perder seu charme ou sua postura, o que desde o início já dava a dimensão do desafio.

Com a aprovação de Robyn Asimov, filha de Isaac, os roteiros da Fundação não especificaram a raça ou gênero de muitos de seus personagens, que foram então decididos no processo de casting.

É também um spoiler revelar o que a intenção tecnológica aparece no início da Fundação, mas podemos dizer que é uma das muitas ideias com as quais a ficção científica tem fantasiado por décadas. O que acontece com essa obra-prima do conhecimento humano é mostrado na série com um poder que deixa claro que a Fundação tem um orçamento mais do que confortável e que a parte desse orçamento destinado aos seus diretores de episódios e equipes de pós-produção é dinheiro bem gasto, o que aumenta a expectativa do público, como destacou Tamara Vazquez em reportagem sobre a série publicada no periódico espanhol Expansion.

Dois anos após o fim de ‘Game of Thrones’, as plataformas digitais ainda tentam criar a série que se torna o novo fenômeno da televisão em massa. Logo a Apple TV + não planeja ficar para trás nesta corrida já com os primeiros episódios de ‘Fundação’.

O desafio para o Apple TV+ não é fácil., pois a obra é uma trilogia composta pelos livros ‘Fundação’ (1951), ‘Fundação e Império’ (1952) e ‘Segunda Fundação’ (1953) – certamente estes serão os volumes que veremos na tela, ao qual foram adicionados mais tarde “Os limites da Fundação” (1982), “Fundação e Terra” (1986), a prequela ‘Prelúdio à Fundação’ (1988) e “Rumo à Fundação” (1993),  este último publicado postumamente. Que devem ser apresentados em cerca de oito temporadas.

É um bom trabalho, e certamente mais digerível para o público em geral e adaptaram-se a uma sociedade mais aberta do que a de Asimov. Nesta série há protagonistas femininas (Salvor Hardin, Gaal Dornick e Demerzel, que não aparecem na trilogia original) e, embora seja igualmente humanista, reduz os longos diálogos e as inúmeras referências a ideias abstratas e conceitos para dar lugar à ação e ao romance, algo que pode ser o que menos os seguidores mais fiéis da obra original gostariam.

Em um futuro muito distante, o Dr. Hari Seldon, pai da disciplina matemática da História Psicose, prevê a iminente queda do Império Galáctico. Enfurecidos pelas teorias de Seldon, os Cleótons (uma longa linha de sucessão de imperadores clones) exilam o matemático e um grupo de seguidores de sua teoria para os últimos confins da galáxia para que, se suas previsões forem precisas, reconstruam e preservem o futuro da civilização. “Este é um jogo de xadrez de 1.000 anos entre Hari Seldon e o Império. Todas as suas peças são peões, mas algumas acabarão se tornando reis e rainhas”, resume Goyer, que planejou até oitenta horas de série, se a audiência no canal de streaming corresponder.

Nas décadas que se passaram desde que os livros da ‘Fundação’ foram publicados pela primeira vez, a obra profética da ficção científica de Asimov nunca foi tão relevante como é agora”, em um cenário de pandemia e uma nova corrida espacial, dessa vez entre empresas privadas.

Ao lermos Asimov, ou ver sua obra nas telas sempre nos perguntamos: Esse é um futuro possível? Assim caminhará a humanidade? Bem muito do que fazemos hoje rotineiramente já foi considerado uma heresia, e por muito menos os que se atreviam a pensar foram parar nas fogueiras da ignorância.

O fato é que ver alguém como Asimov escrevendo tanto tempo antes parte do que vivemos hoje, acaba por dar lua ainda maior ao fosso em que a ignorância nos joga.

Tentar imaginar uma vida atual com terraplanistas e outras tribos do atraso, pode revelar a importância das pessoas que se atrevem a pensar o futuro.

Imagine o mundo ao ler as primeiras leis da robótica?

O Universo jurídico precisa e muito de juristas com inspiração na ficção, afinal nunca foi tão desafiante escrever normas de previsão hipotética para regrar condutas futuras nesse universo de transformação permanente e acelerada.

É sempre bom sentir os ventos da mudança, por mais que ele incomode as mentes do atraso.

A série explora as reflexões entre liberdade individual e a perigosa segurança das regras dinásticas, as noções de destino e livre-arbítrio, extremismo e discordância, um discurso atual considerando os delírios das redes sociais.

Ela é boa por colocar a ciência e a matemática no centro da vida, chegando em nossas casas, nesse momento em que as trevas ganham voz.

“Matemática não são apenas números”, diz a série. “Nas mãos erradas, é uma arma. Nas mãos certas, libertação”.

A história da humanidade sempre será a narrativa da ousadia, estando ela certa ou não, o desafio sempre será promover o desenvolvimento com o viés do bem comum e não apenas com a lógica do privilégio de poucos em detrimento a miserabilidade de muitos.

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