AS PLATAFORMAS DIGITAIS VÃO CUIDAR DO SEU DINHEIRO?

Dois movimentos realizados pela Apple e pelo Google nas duas últimas semanas confirmam uma tendência irrefreável, as plataformas digitais que já comandam o nosso tempo, vão comandar também o nosso dinheiro.

No primeiro caso a Apple adquiriu a Credit Kudos, uma startup fintech sediada no Reino Unido, indicando um impulso ainda mais profundo na tecnologia de pagamentos pela fabricante do iPhone.

O Credit Kudos usa aprendizado de máquina para criar uma alternativa às classificações tradicionais de crédito, sugerindo que a gigante da tecnologia dos EUA pode estar procurando expandir seus serviços de empréstimos. A Apple oferece um cartão de crédito, que atualmente só está disponível nos EUA, em parceria com o Goldman Sachs, e também oferece planos de parcelamento para seus dispositivos.

A Apple expandiu-se para serviços financeiros mais lentamente do que alguns no setor bancário temiam em 2014, quando lançou o Apple Pay, que permite pagamentos sem contato usando seu iPhone e Watch e através de seu navegador Safari.

Relatórios no ano passado sugeriram que a Apple planejava introduzir um recurso de “comprar agora, pagar mais tarde” no Apple Pay, semelhante às opções de pagamento oferecidas pela Klarna, PayPal e Afterpay.

A aquisição do Credit Kudos poderia dar à Apple essa funcionalidade, pois em vez de forçar os consumidores a fazer um saque total de crédito apenas para comprar uma roupa de R$500,00 por que não verificar rapidamente sua credibilidade diretamente de sua conta bancária?”

O Credit Kudos não tem uma licença bancária no Reino Unido, onde opera, mas aproveita os padrões de open banking do país, que visam tornar mais fácil e seguro para os consumidores compartilhar informações financeiras selecionadas de contas bancárias e cartões de crédito com centenas de provedores de serviços menores.

A fintech com sede em Londres arrecadou 5 milhões de libras em 2020 em uma rodada de financiamento liderada por Albion VC.

Com o objetivo de tornar o crédito acessível mais disponível e ajudar a tomar decisões de crédito mais rápidas, a empresa está buscando medidas alternativas para avaliar o risco de crédito das pessoas para as empresas, incluindo aplicativos de aluguel e outras fintechs. As medidas tradicionais de avaliação de crédito, como extratos bancários e contas de serviços públicos, têm enfrentado críticas por sua falta de capacidade de avaliar com precisão a situação financeira do consumidor.

O movimento das plataformas digitais, é de dedicado a cuidar do seu dinheiro, afinal com crise ou sem crise bancos continuam ganhando muito dinheiro, mas imagine se quem cuida do seu dinheiro sabe dos seus hábitos diários com todos os detalhes possíveis?

É bom lembrar que durante a pandemia, a fortuna dos dez maiores bilionários dobrou, enquanto 160 milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza, e tudo isso enquanto milhões de brasileiros abriram suas contas digitais, o que uma fintech pode fazer pra renovar o sistema financeiro?

Fale com o seu barbeiro, ou com o rapaz do taxi e pergunte pra ele que recebe pagamento em cartão de crédito quanto custa pra ele lhe ofertar a comodidade de receber o seu pagamento em cartão de crédito?

Na média, as administradoras de cartão estão cobrando de 5% a 7% caso ele queira adiantar seus recebíveis do cartão de crédito, logo pense o que a digitalização dos meios de pagamento desses profissionais fez por eles?

Esse é o melhor exemplo de que a transformação digital sem a intervenção estatal pode fazer, explorar ainda mais os menos favorecidos, ampliando com isso o que já é injusto, a concentração de renda, e lembro que transformação digital que amplie a concentração sempre será um retrocesso.

Nesse no mundo, mais de 60% dos bancos comerciais optem por colaborações com fintechs e aumento do investimento interno em novas tecnologias. Essa transformação permitirá que os bancos comerciais mudem “de uma única abordagem para um processo colaborativo que atrai clientes existentes e, por sua vez, aumenta o engajamento. Além disso, esse modelo permitirá expandir a base de clientes a um custo menor para esses bancos, em outras palavras uma transformação digital que melhora ainda mais o resultado desses bancos.

Em relação à tomada de decisão sobre empréstimos, com acesso total às novas tecnologias, os bancos comerciais estão incorporando análises e dados complementares em seu conjunto de serviços de empréstimos, o que não se traduziu na redução de taxas, apenas na melhoria do resultado desses bancos, que batem recordes enquanto a renda do brasileiro derrete. Tente imaginar as big techs com todo capital disponível, e com universo de informação maior que os bancos, aplicando taxas de empréstimos próximo as utilizadas atualmente, gerando apenas mais concentração.

Do que adianta fazer evoluir a “consciência sobre a importância da gestão financeira” em nossos jovens empreendedores quando os números do crédito no Brasil tornam ele proibitivo?
Por outro lado, é preciso também que as pessoas façam parte e se apropriem disso, façam seus investimentos, poupem, invistam e façam esse dinheiro para si próprios e para a sociedade brasileira, com um custo menor.

Tecnologia que não represente melhoria para todos de nada adianta, pois só representa a apropriação das oportunidades, pelos mesmos de sempre.

Distribuir contas digitais com custo do crédito ainda mais elevado de nada adianta, pois é um engodo não cobrar mensalidades e incluir esse valor na captação do crédito por esses correntistas.

O segundo movimento realizado pelas big techs nessa semana foi feito pelo Google, que em meio à forte pressão, está lançando um programa piloto para permitir que algumas empresas implementem seu próprio sistema de pagamento.

Dessa maneira o Google abre as portas para empresas que usam sua loja de aplicativos para oferecer aos consumidores meios alternativos de pagamento. O primeiro grande negócio dentro de um programa piloto de escopo limitado foi fechado com o serviço de música Spotify, uma das empresas mais beligerantes com a política de loja de aplicativos.

O movimento do Google vem em meio ao escrutínio dos reguladores sobre essas práticas e à crescente oposição dos desenvolvedores às taxas cobradas pelas gigantes digitais em suas lojas de aplicativos, que chegam a 30%. De fato, empresas como o Spotify não permitiram que seus clientes se registrassem a partir de aplicativos móveis para evitar ter que pagar essas comissões.

De acordo com o acordo, no aplicativo Spotify na Google Play Store os usuários poderão escolher entre o método de pagamento do Google ou a alternativa oferecida pelo Spotify. O serviço de música espera poder implementar a opção até o final do ano. As empresas não divulgaram qual comissão o Google aplicará ao Spotify em assinaturas feitas através de sua loja de aplicativos.

O acordo com o Spotify faz parte de um programa piloto que permitirá que “um pequeno número” de desenvolvedores implemente uma opção alternativa de pagamento.

O movimento do Google vem em um contexto de forte escrutínio dos reguladores e das próximas mudanças legislativas. A União Europeia finaliza suas novas regulamentações digitais que, entre muitos outros aspectos, forçarão esses gigantes a oferecer métodos alternativos de pagamento, enquanto o Congresso dos EUA está debatendo a legislação nesta linha.

No final do ano passado, a Coreia do Sul aprovou uma lei forçando a Apple e o Google a permitir que desenvolvedores que vendem bens e serviços dentro de aplicativos ofereçam métodos de pagamento alternativos. Neste caso, o Google explicou que continuaria cobrando uma comissão, mas com uma redução de 4% na taxa que se aplica se seu sistema de pagamento for usado.

Neste contexto de forte oposição, que incluiu ações antitruste como a apresentada nos Estados Unidos pela Epic Games, o Google vem relaxando sua política de comissão. Em julho, reduziu pela metade (de 30% para 15%) a taxa que cobra dos desenvolvedores pelo primeiro milhão de dólares que faturam anualmente no Google Play. Em janeiro deste ano, entrou em vigor uma redução de 30% para 15% para a venda de assinaturas digitais. No caso de e-books e serviços de música, a comissão é de 10%

Todo esse movimento segue na mesma direção, as plataformas digitais ofertando cada dia mais produtos e serviços ampliando a sua participação na economia, cuidando a cada dia mais da sua carteira, e não por força de expressão.

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