APLICATIVOS DE NAMORO E A PATERNIDADE

A modernidade faz com que permanentemente possamos rever conceitos, e muitas perguntas que me fazem alimentam a reflexão que faço nos artigos.

Dia desses me perguntavam se era possível encontrar um bom pai para o seu filho, quando buscamos um parceiro(a) em sites de encontros?

Não era a primeira vez que uma questão formulada me levava a escrever sobre tempos digitais e relações sentimentais, afinal eu não consigo dissociar paternidade de sentimentos, e vejo nos melhores sentimentos o terreno fértil para o casamento (independentemente da forma).

Bem lembro que Rashied Amini, um engenheiro de sistemas da NASA (Agência Espacial Americana) lançou o Nanaya, uma plataforma baseada em um algoritmo que calcula as chances de você encontrar sua cara metade, com o intuito de pessoas se encontrarem e diminuírem as possibilidades de decepção nesse encontro, fazendo com que a relação evolua e se tenha sucesso no casamento, ao menos essa é a pretensão do algoritmo.

O curioso dessa criação, é que foi uma desilusão amorosa que impulsionou Rashied a botar o projeto em prática. Quando o engenheiro de sistemas ainda namorava, surgiu pra ele o desafio de matematicamente provar se a relação que na época ele tinha teria futuro, não se trata de spoiler mas aquela relação da época fracassou é claro.

Porém lembro que o Nanaya, segundo sua própria descrição, “é um teste de personalidade para prever cientificamente o futuro da sua vida amorosa e relatar dados personalizados para ajudar a construir laços românticos e sociais”, ou seja ele não é um site de namoro, caso você tenha se apresado para acessar em busca do par perfeito.

O programa oferta conclusões a partir de dados estatísticos configuradas em seu perfil. No primeiro instante, a versão básica do site é gratuita, então você pode fazer o teste sem pagar nada (pílula experimental).

O software irá desenhar o “mapa” do usuário, por meio de um questionário bem detalhado, e concluir probalisticamente se as características do seu parceiro vão levar a relação de vocês ao sucesso, e quem sabe um dia vocês possam ter ou não, filhos maravilhosos dessa relação matematicamente calculada. 

Eu nunca entrei em um site de relacionamentos, por mais que tenha curiosidade, seja pelo fato de ter vivido dois casamentos seguidos (17 e 4,5 anos), e também por particularmente entender que a minha privacidade é mais importante, mas isso é bem pessoal.

Entendo que o que essas plataformas de encontro fazem, é filtrar necessidades e buscas, ou seja são o google dos relacionamentos, e logo lá tem anúncios de todos os tipos, nesse classificados cada pessoa procura dar destaque ao que entende ser o que o seu target group pode dar preferência.

Quanto a paternidade, como pai de dois filhos penso que tem uma distância muito grande, seja pela necessidade de maturidade da relação para definir o momento de se ter um filho, e logo depende de um tempo mínimo de construção desses sentimentos que vão fazer a base dessa relação, por isso que escolhas e definições apressadas são quase sempre o caminho errado na escolha de um bom pai ou de uma boa mãe, e que atropelar etapas resulta em relações frustradas em que os filhos são os que mais sofrem.

Por coincidência no momento em que escrevia esse artigo me deparei com a publicação de hoje de um artigo da Rosely Sayão, publicado em sua coluna no jornal Estado de São Paulo, exatamente hoje, e de lá extraio alguns trechos interessantes, sobre o sofrimento dos filhos na separação, e por isso o transcrevo na íntegra:

“Meus filhos estão sofrendo muito porque estou me separando. Isso vai passar?” Essa é uma questão que perturba muitos pais que estão vivenciando o processo de divórcio ou que já passaram por ele.

É justificável e legítima tal preocupação. Afinal, os pais constituem o primeiro grupo ao qual a criança pertence a família e, ao se separarem, desconstroem essa estrutura de grupo com o qual a criança já tem íntima relação e que lhe oferece segurança, bem-estar, confiança e uma autoimagem favorável. Por isso, é claro que os filhos sofrem com o divórcio dos pais. Porque ele provoca um contexto de perda dolorosa para eles, produz mudanças significativas às quais a criança terá de se adaptar, e isso pode ser perturbador.

Entretanto, tal sofrimento pode ser minimizado, dependendo de como o processo da separação ocorre. Nenhum divórcio vem repentinamente, sem motivos. Há um período que o antecede e outro que o sucede, e as três etapas podem ser vivenciadas de modos muito diferentes.

É importante lembrar o que a psicanalista Françoise Dolto afirmou em sua obra: não é um acontecimento em si, por mais nefasto que seja, que compromete o bem-estar mental da criança, mas a maneira como o fato é tratado pelas pessoas que a cercam.

Vamos, então, tratar de alguns pontos importantes e que contribuem para a manutenção da saúde mental dos filhos em situações assim. Antes de tudo: a criança precisa ser respeitada, por isso os pais precisam dizer a ela a verdade. Nada de disfarçar a situação: a criança vai, cedo ou tarde, descobrir que seus pais a enganaram.

Em todas as idades, os filhos precisam ser poupados dos detalhes que motivaram a separação isso faz parte da intimidade do ex-casal e só interessa a eles e precisam de garantias de que os pais continuam a amá-los e dispostos a cuidar deles. Ex-casal, excunhada/o são fatos comuns hoje. No entanto, não existem ex-mãe, ex-pai ou ex-avós. Por isso, é preciso superar ressentimentos, mágoas, decepções etc., porque o bom diálogo e a convivência respeitosa entre eles são aspectos importantes para a manutenção da saúde mental dos filhos.

Se a separação é litigiosa porque envolve bens, é preciso lembrar que os filhos não podem ser assim considerados nem envolvidos nessa briga judicial. E qual a melhor maneira de estabelecer a guarda dos filhos? A compartilhada é, sem dúvida, a maneira que permite que os filhos continuem sob a tutela e responsabilidade de ambos os pais.

Não se pode considerar a guarda compartilhada como uma alternância de guarda dos filhos. O mais importante da guarda compartilhada é justamente o fato de que as decisões importantes a respeito delas precisam ser tomadas em conjunto pelos pais.

E por falar em convivência precisamos retirar de nossa sociedade a ideia de que a guarda fica com um dos pais e outro “visita” os filhos. Jamais! Não me canso de afirmar que mãe e pai não podem ser considerados visitantes pelos filhos. E quando há decisão dos períodos de convivência nomeados como “visitas”, inclusive pelo Poder Judiciário, os filhos são negativamente afetados. Como assim, sai um pai ou mãe e entra uma visita?

Por fim, precisamos falar de um fato que muitas mães e pais enfrentam: a criança dizer que não quer se encontrar ou ir para a casa do pai ou da mãe com quem não passa a maior parte do tempo. Sempre que sou consultada a respeito, há a lembrança de crimes que aconteceram contra crianças de pais separados.

Conviver com ambos os pais é um direito da criança e propiciar isso aos filhos é dever de ambos os pais!

Conviver com ambos é um direito da criança e facilitar isso é um dever dos pais.”

Depois dessa ótima reflexão, eu acrescento aqui o meu testemunho, afinal minha mãe e meu pai se separaram quando eu tinha apenas dois anos, e quando eu tinha cinco anos meu pai faleceu.

Minha mãe casou-se quatro vezes e somos três irmãos de três pais diferentes, o que nunca fez com que nossos sentimentos fossem menor, pois os valores que carregamos sempre serão uma herança do processo educacional dos nossos país. Não existe meio irmão na acepção cultural da palavra, o que existe sim são pais que não cuidam e não protegem seus filhos nesse turbilhão de sentimentos e de traumas, é preciso explicar que não existe amor (de irmão) pela metade ele é inteiro, ou não foi cultivado.

Decidir por casar e por ser pai precisa de maturidade e o mínimo de conhecimento um do outro, e a pressa só colabora por deixar feridos no meio do caminho.

Qualquer que seja a sua escolha, a paternidade não é nunca será comprar um pássaro e colocá-lo em uma bela gaiola, pois não basta a hipossuficiência material, é preciso equilíbrio, e carinho.

Quando me separei no meu primeiro casamento, minha filha tinha 12 anos e meu filho estava completando 2 anos, sei que eles e principalmente ela sofreram bastante, e para mim o pior momento da semana sempre era deixá-los na casa da mãe deles, onde a despedida no carro e a partida com a imagem daqueles dois anjinhos se afastando era sempre muito doloroso.

Eu amo ser pai de dois, e não tenho nenhum problema em ser de três ou mais, não existe trauma na vida que não nos faça mudar, mas eles nos servem para ressignificar as nossas responsabilidades na vida, que vão muito além das escolhas por algoritmos.

Onde eu errei? Poderia ter evitado? Tudo isso me leva a uma única conclusão:

Não existe uma fórmula perfeita para as relações darem certo, mas com certeza a pressa e o atropelar de etapas é o melhor caminho para o fracasso.

Em tempos de relações líquidas e apressadas, não importa em qual profundidade o estado de espírito nos jogue, desprezados, distantes, injustiçados ou incompreendidos, ou apressados pela justificada paternidade, em que a nossa vontade deve vir com o equilíbrio e um pouco de paciência.

Não existe idade para paternidade, mas existe momento em que os dois saibam que estamos diante da escolha ideal.

Não importa o tempo ou a forma, não importa se longe ou perto, se estamos juntos ou distantes um do outro, o que importa é que indiferente de ser digital ou analógico você, ao pensar em ser pai ou mãe, possa fechar seus olhos escutar e responder ao seu parceiro.

Eu te amo.

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