ALGORITMOS OS SENHORES DAS NOSSAS ESCOLHAS

Quanto do seu dia você permanece conectado em algum aparelho, seja ele celular, tablet, notebook ou qualquer outro dispositivo conectado à internet como os canais de tv por streaming?

Quanto do seu tempo é dedicado a essa interação? Quanto das escolhas de conteúdo visualizado e produtos e serviços adquiridos você poderia dizer que realizou sem nenhuma interfer6encia do marketing digital?

Você certamente já ouviu falar dos algoritmos utilizados pelas empresas de tecnologia e seu poder de persuasão, para muitos custa chamar de “o perfeito instrumento de modulação”, em outras palavras, modulação algorítmica.

A modulação algorítmica tem como propósito influenciar os comportamentos como a chamada manipulação de mídia. A internet registra nossas preferências, através de nossas curtidas, compartilhamentos, leituras, compras, comentários, tudo milimetricamente registrado, desde o assunto ao horário, ao intervalo de curtidas, os sites registram os intervalos, sabem perfeitamente distinguir das curtidas protocolares, aquelas que fazemos pra dizer apenas que vimos, ainda que não tenhamos a menor noção do que de fato curtimos, naquilo que antigamente chamaríamos “rir pra não perder o amigo”.

E logo nessa economia da atenção, curtimos o almoço na praia do amigo postado no Instagram, ou a foto da colega na praia, ou o passei de carro, de lancha, tudo que é postado e que tem relevância pra quem postou e que por isso mesmo ele acredita que seja relevante para o outro, quem melhor registra essa relevância é sempre o algoritmo, é ele que faz a leitura dos nossos sentimentos, vontades e por estatística edifica nossos perfis, propondo conteúdos, fotos, vídeos, produtos e serviços que gerem mais tempo de atenção, ou conversão através de clicks, comentários, compartilhamentos ou aquisição desses produtos e serviços que estão sendo ofertados.

Conforme passa o tempo e a nossa “pegada digital” é ampliada pela interconectividade das diversas plataformas os algoritmos vão calibrando a nossa “bolha social de convívio”.

Como lembra o ativista digital, Eli Pariser, no seu livro “O filtro invisível: O que a internet está escondendo de você”: “Com os novos métodos de “análise de sentimentos”, já é possível adivinhar como alguém está se sentindo. As pessoas usam muito mais palavras positivas quando estão se sentindo bem; analisando uma quantidade suficiente de mensagens de texto, postagens no Facebook e e-mails, é possível separar dias bons de dias ruins, mensagens sóbrias de mensagens bêbadas (muitos erros de ortografia, para começo de conversa). Na melhor das hipóteses, isso pode ser utilizado para oferecer conteúdo adaptado ao humor da pessoa: num dia ruim no futuro próximo, a rádio Pandora talvez aprenda a nos oferecer o álbum Pretty Hate Machine quando chegarmos em casa. Mas o método também pode ser usado para se aproveitar da nossa psicologia. Considere as implicações, por exemplo, de sabermos que certos clientes compram produtos compulsivamente quando estão estressados ou quando estão se sentindo mal consigo mesmos, ou até quando estão um pouco embriagados. Se o perfil de persuasão permite que um aparelho de coaching grite “você consegue” às pessoas que gostam de reforço positivo, em teoria isso também poderia ser usado por políticos, para que fizessem propaganda com base nos medos e pontos fracos de cada eleitor. “

Cada mídia com o tempo se especializa no maior aproveitamento, na maneira de gerar a maior “conversão”.

Como lembra o autor “os longos infomerciais não são mostrados no meio da madrugada apenas por serem mais baratos nesse horário. No meio da madrugada, as pessoas costumam estar especialmente sugestionáveis. Elas se interessam por um multiprocessador que nunca comprariam em plena luz do dia. No entanto, a regra das três da manhã é muito aproximada–supostamente, existem momentos na vida de cada um de nós em que estamos especialmente inclinados a comprar qualquer coisa que seja colocada diante do nosso nariz. Os mesmos dados que geram o conteúdo personalizado podem ser usados por marqueteiros para descobrir e manipular os nossos pontos fracos pessoais. E essa não é uma possibilidade hipotética: a pesquisadora da privacidade Pam Dixon descobriu que uma empresa de dados chamada PK List Management oferece uma lista de “Compradores Impulsivos”; as pessoas incluídas na lista são descritas como altamente suscetíveis a ofertas apresentadas como prêmios. Se a persuasão personalizada funciona no caso de produtos, também pode funcionar com ideias. Certamente existem momentos, lugares e tipos de argumentos que nos tornam mais suscetíveis a acreditar no que nos é dito. As mensagens subliminares são ilegais porque as pessoas reconhecem que certas formas de argumentar são essencialmente ilícitas; pré-condicionar as pessoas a comprar produtos usando palavras apresentadas subconscientemente durante um mero instante não é um método justo.”

Note que essa obra foi publicada no início de 2012, e que 10 anos em evolução tecnologia e em registro de novos algoritmos é uma eternidade, e logo tente imaginar o que nesse período foi ampliando em termos de usabilidade de gadgets e rastreio?

Para se ter uma ideia os algoritmos que têm o poder de identificar padrões, seja de busca, seja de hábitos, tem atualmente cerca de 7 mil patentes, um número assustador. Desse número 7,4% pertencem a Samsung, 4% a Microsoft, o Google 3,5%, Facebook outros 3%, e assim vai. Quem lidera o número de registro de patentes são empresas de tecnologia.

Pois então, qual a importância do algoritmo? O algoritmo identifica através de inúmeros padrões repetitivos quais são suas preferências e é através deste estudo comportamental que a engenharia humana, por meio desses perfis, vai indicar para você que conteúdo irá ser mostrado na web.

O conteúdo que você recebe de anúncios, por exemplo, é pautado nos seus hábitos de consumo que o algoritmo identificou. Cada vez mais as pessoas deixam de ter uma livre escolha para ter uma escolha modulada por um algoritmo.

E logo desde a publicação da obra para cá, a captura de dados cresceu enormemente pela proliferação das inúmeras redes sociais, onde depositamos diariamente mais informações sobre nós, nossos amigos, familiares e preferências. E logo, a lógica comercial das redes sociais acaba por “empoderar” todo e qualquer tipo de pessoa, de cultos aos idiotas, sendo que esse segundo grupo é maior e grita mais sempre.

Eu adoro a percepção de que as redes sociais servem de empoderamento dos menos favorecidos, ela segue a linha da ingênua galinha que acreditava ser amiga da raposa, coitada já morreu, de forma trágica e esperançosa entre uma dentada e outra da “amiga”.

Tenho certeza, e o tempo é minha testemunha que os discursos de ódio não são uma criação das redes sociais, elas apenas catalisaram ao dar voz e imagem aos ignóbeis, e que em tempos de economia de atenção são ampliadas pelos algoritmos, fazendo urrar milhares de bestas adormecidas no silêncio, que precisavam de uma mera fagulha pra despertar.

Basta algumas “curtidas”, comentários de apoio, compartilhamentos, e pronto nasce um líder de bairro, de grupo que espelha a ignorância dos demais e que nele se identificam como a voz da minoria, e que em alguns processos chegam a maioria.

Protegidos pela propriedade intelectual, muitos algoritmos das redes sociais cristalizam esse absurdo, e logo é na falta dessa transparência que a ignorância encontra seu fermento. Parte da genealogia desse problema em tempos redes sociais está na própria fonte dessas redes.

É essa falsa percepção de empoderamento que estimula e ajuda também, a tornar essas redes sociais viciantes, claro tudo isso alimentado pelas estratégias comercial e um design milimetricamente estudado para tornar seu uso absolutamente viciante.

É o nosso tempo a moeda com dados e ao mesmo tempo nosso vício, que nos transforma em escravos nessa relação que em muitos caso beira a enfermidade.

Por sua vez o algoritmo ao perceber os conteúdos não curtidos por você, não comentados e não compartilhados, vai tirando os mesmos da sua linha de tempo.

Nunca tivemos tanta informação e nunca a ignorância desfilou tão solta e reluzente aos olhos de incultos, maldosos e em uma parcela de inocentes. E é evidente também que nesse instante de transformação social, onde muitos não encontram mais espaço nesse novo mercado de trabalho que se desenha, levando os mesmo a serem massas de manobra das mais despudoradas teorias da conspiração, onde loucura pouca é bobagem.

Logo passamos a ser viciados em mentiras que nos projetam em nosso grupo, na bolha que vivemos, o filtro deixa de estar preocupado com a construção da verdade e vira prisioneiro da narrativa que fortalece os extremos em um hábito viciante.

Os celulares são de fato a nova nicotina, na fila do banco, na espera do consultório, somos por designs cada dia mais responsivos, embriagados de novas doses viciantes, que nos transformam em prisioneiros de suas telas. Nossa perspectiva de vida mudou, de grandes telas e páginas de livros e revistas, para as minúsculas telas de nossos celulares, onde tudo é registrado para te oferecer novas e maiores doses.

Em seu novo livro, o professor da USP, Eugênio Bucci, reflete sobre as recentes faces do capitalismo dos algoritmos, entendendo que “Enquanto navegamos pelas redes sociais, estamos trabalhando, para os outros. E de graça, permitindo que nossas informações sejam reunidas, catalogadas e transformadas em bases de dados. Não há mais um imaginário com o qual as companhias dialogam para vender um produto. O capital passou a criar o próprio imaginário em que estamos mergulhados.”

A prisão estética comportamental, com os padrões ideologicamente dominantes pode ser gélida, e likes nem sempre representam carinho nesse novo padrão digital, eles podem ser mero protocolo de convivência na adequação entre expectativa e realidade.

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