AGRO É TECH, AGRO É POP E A INDÚSTRIA PAGA O PATO?

Nesse momento no mundo, quase a metade da população mundial ainda lavra a terra, número muito distinto do Brasil, onde nesse instante apenas 15,6% da população ainda vive no campo (censo de 2010). Quando se pense em números mundiais ficamos impressionados que ainda 2,4 bilhões pessoas vivam da atividade no campo, dependendo da terra.

O que mais assusta nesses números é que a agricultura, cada dia mais tech e cada dia mais pop, retira o homem no campo de forma acelerada, desempregando em grande escala.

Para se ter uma referência do ganho de produtividade no campo e do seu consequente desemprego basta lembrar que em 1880, eram necessários mais de 20 homens/hora para colher um acre de trigo. Em 1916, o número de homens/hora foi reduzido para 12,7. Vinte anos depois, só 6,1 homens/hora eram necessários.

O avanço da tecnologia com ganho de produtividade, pode ter uma outra referência, o que pode dar a dimensão do desemprego promovido pelo avanço tecnológico.

Visto por outro ângulo, em 1850, um único trabalhador rural produzia alimento suficiente para quatro pessoas. Em 1995, nos Estados Unidos, um único agricultor produzia alimento suficiente para alimentar 78 pessoas, como bem destaca o professor Martin Pino em seu livro “O Fim dos Empregos Pela Inteligência Artificial e Robótica”.

A mecanização, com a consequente automatização e robotização dos processos segue seu curso acelerado, o que só contribui para o desemprego no campo, levando essa mão de obra para as cidades. Essa política equivocada que não exige verticalidade no campo, gerando mais empregos e mantendo o homem no campo, além de agregar valor ao produto brasileiro faz com que tenhamos figuras curiosas no ramo alimentar.

Somos os maiores produtores de mais de 20 tipos diferentes de alimentos, e no entanto, são raras as marcas brasileiras de alimento que tem nome conhecido pelo consumidor final, poderíamos ficar apenas em dois exemplos, no café e no chocolate, onde as marcas mais famosas são italianas e suíças sem ter um só pé de café ou cacau plantados nesses países.

Exportamos o produto bruto e continuamos importando ele beneficiado, permitindo com que todo valor agregado fique fora do Brasil.

E com o crescimento do consumo nos países africanos e asiáticos estamos vendo o acelerado crescimento do consumo de nossas comodities, e com a combinação de alta de dólar somada a alta das comodities temos aqui no Brasil o aumento da pobreza com a elevação dos custos da cesta básica, uma combinação mortal para todo povo brasileiro, notadamente para os mais carentes.

O Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio brasileiro, calculado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, vem crescendo muito acima da média dos demais setores, demostrando uma total falta de política que seja focada na agregação de valor e geração de emprego, assim o setor de serviços e a nossa indústria pagam o pato por essa regulação sem intervenção alguma nesse mercado.

Os números são a melhor prova disso em 2020 a agricultura bateu a participação de 26,6% no PIB brasileiro (participação que era de 20,5% em 2019), um crescimento de mais de 20% em um único ano, são cerca de R$ 2 trilhões.

Tudo caminha para seguirmos exatamente no mesmo caminho, elevação do preço interno, aumento da cesta básica e aceleração do desemprego, com a permanente automatização da agricultura, e com os avanços tecnológicos na biotecnologia, no controle de pragas e na automatização dos processos no campo, desde a grande a pequena propriedade, mais produtividade cada vez com menos pessoas.

Num futuro, muito breve as fazendas, independentemente do seu tamanho, serão automatizadas, virtualmente operada por computadores e robôs, onde o dono da fazenda acompanha tudo pelo celular de são paulo, enquanto as máquinas automatizadas cuidam da produção. Avanços que já existem, como em Israel, que já criou o colhedor robotizado, que vem sendo utilizado para transplantar, cultivar e colher produtos redondos ou em “cabeças”, como, por exemplo, melões, abóboras, repolhos e alfaces. Batizado de Romper (Robotic Melon Picker, colhedor de melão robotizado), o robô é montado sobre um reboque e equipado com câmeras que fazem a varredura das fileiras de plantas, enquanto um ventilador sopra a folhas “para expor o fruto escondido”.

Um computador de bordo, “analisa as imagens, procurando um ponto redondo e brilhante, identificando-o como o fruto a ser colhido”. Ainda mais impressionante, o Romper é capaz de confirmar se o fruto está maduro pelo “cheiro”. Sensores especiais medem os níveis de etileno, que é o hormônio natural que provoca o amadurecimento da fruta e conseguem “julgar” seu amadurecimento em até um dia, como destacado na obra citada.

Para se ter uma ideia, em 1996, apenas 11,6% do PIB brasileiro provinha da agricultura, em cerca de 25 anos sua participação cresceu cerca de 150% (26,2%), no mesmo período a participação da indústria no PIB brasileiro caiu de 34,6% para 24,2%, ou seja, o campo ultrapassou a nossa indústria.

Isso não seria um problema se essa queda não fosse acompanhada de um fechamento acentuado das nossas indústrias, que mesmo com dólar tendo saído de R$0,94 para R$5,35 e com um mercado de 220 milhões de consumidores não consegue enfrentar nem seus concorrentes do exterior nem tampouco a elevada carga tributária.

A tributação favorece o campo, e o mantem sem nenhuma necessidade ou obrigação de agregar valor ao produto, investindo em marca e gerando mais empregos, pelo contrário, o dólar elevado é o sonho de consumo do campo e o pesadelo de todo consumidor brasileiro.

E a indústria assiste ao agro tech, que com seus lucros assustadores é cada dia mais pop, no Brasil onde a indústria de pires na mão paga o pato.

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