ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA, SEUS PRÉDIOS, ESCRITÓRIOS E O PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA

Qual o sentido de mantermos toda essa estrutura cara ao bolso do contribuinte?

Durante a pandemia, o fechamento dos prédios públicos como lockdown levou muitos a refletirem qual a necessidade de tantos prédios públicos?

Se no início a União, os Estados e Municípios tinham preocupação justificada com a arrecadação, o modelo econômico e tributário baseado no oligopólio e nas tarifas públicas fez a arrecadação dos entes federativos crescer, o que só prova a necessidade de uma reforma, afinal qual a lógica de um sistema tributário crescer em arrecadação quando temos um aumento da pobreza? Um sistema que não cuida da distribuição de renda, com todas as ferramentas possíveis, é no mínimo injusto e trabalha contra um desenvolvimento distributivo, pois amplia ainda mais as mazelas sociais. Não existe desenvolvimento justo, quando trocamos de carro no mesmo tempo que precisamos aumentar a segurança dos nossos lares com grades e alarmes.

Logo se o Estado brasileiro precisa ser mais efetivo nas ações sociais, na medida que não faz uma reforma fiscal e tributária, é evidente que ele precisa aumentar o seu grau de eficiência na forma de devolver aos seus contribuintes e não vassalos, o valor que arrecada na forma de obras e serviços.

Por isso qual o sentido de tamanha despesa com prédios e o seu mobiliário? O longo período de home office desses poderes deve levar a uma nova reflexão: Quem precisa de tantos prédios?

Toda administração pública, poder legislativo e judiciário estão operaram majoritariamente em home office durante mais de 12 meses, fazendo com que assim inúmeros prédios públicos permanecessem fechados, logo qual o sentido de mantê-los na mesma proporção, quando muitos dos seus colaboradores intercalam seus expedientes de forma híbrida?

A pergunta que não quer calar é: Será que precisamos de tantos prédios públicos? Será que precisamos gastar tantos milhões de reais em reformas desses edifícios? Se a Administração Pública direta e indireta é regida em seu Texto Constitucional pelo Princípio da Eficiência qual o sentido nesse desperdício?

A adequação dos ambientes de trabalho, públicos e privados após a experiência da pandemia segue um fluxo normal, no redesenho da forma de trabalharmos, e não faltam dispositivos digitais para o controle desse trabalho á distância, claro que não para todas as funções e não o tempo todo. Em 1822, chamado Charles Lamb escreveu uma carta para um amigo. Lamb trabalhava nos escritórios londrinos da Companhia Britânica das Índias Orientais. O tom da carta não era otimista. “Você não sabe como é cansativo respirar o ar dentro dessas quatro paredes, sem descanso, dia após dia, todas as horas douradas do dia entre dez e quatro da tarde”. No futuro, Lamb desejava “alguns anos entre a cova e sua mesa”. Afinal quantos de nós estamos felizes em nossas rotinas sejamos servidores ou não?

A descrição da carta do Lamb está numa reportagem longa da revista 1843 sobre o fim do escritório (1843 é uma revista da The Economist e tem o acesso liberado, sem paywall).

“A carta do Lamb ressoa hoje já que, enquanto outros impérios caíram, o império do escritório triunfou sobre nossa vida profissional moderna”.

Em 1911, o engenheiro Frederick Winslow Taylor escreveu um livro chamado The principles of scientific management em que definia algumas regras para fazer empresas operarem de forma mais objetiva, como destaca Guilherme Felitti no podcast do Tecnocracia de 04/06 de 2020 em que trata do trabalho durante a pandemia.

Nos escritórios, o Taylorismo defendia que, dado que estudos da época mostravam que funcionários trabalhavam mais quando observados, a melhor disposição do mobiliário eram mesas coladas umas às outras em um grande galpão aberto. Era o começo do “open office”, isso foi a mais de 110 anos, e você achando que a sua empresa era inovadora?

De lá pra cá os escritórios foram sendo aperfeiçoados ligeiramente, as máquinas de datilografar foram sendo substituídas por computadores, e os cursos de datilografia por curso de digitação e logo estes também já não existem mais, ou você não se lembra que nossas empresas contratavam digitadores?

Dada a base, o escritório foi sendo aperfeiçoado nas décadas seguintes. De vez em quando, algumas ondas mudavam a organização do espaço, impulsionada por alguma nova onda de gestão decorrente de algumas dúzias de livro de “novas tendências da administração e do marketing” sempre boas pra vender palestras, livros de autoajuda e criar novos “gurus”.

Já a partir da década de 1960, o “open office” foi perdendo espaço para um design que dava o mínimo de privacidade aos funcionários, dando início as horrorosas baias, sempre bem retratadas em filmes que quase sempre mostram o lado depressivo desse mobiliário.

A moda continuou forte até o começo dos anos 2000, quando o Google abriu seu Googleplex no modelo de campus universitário e encheu a mídia mundial de reportagens mostrando o ambiente aberto e cheio de diversões, afinal a empresa pra ser moderna tem de vender a imagem de moderna, e logo esse padrão Google com ambientes descontraídos foi amplamente copiado por todas empresas de tecnologia, quase todas criavam salas com pufs e espaços despojados, mais clichê impossível.

O “open office” voltou com força, sem suas paredes e com um ambiente comum. Na tentativa de mostrar um desprendimento com a posição hierárquica, CEOs e presidentes alardeavam com orgulho que não tinham salas e que, em alguns casos, nem as mesas eram fixas, como eles são “modernos né”.

Você vai encontrar algumas razões pelas quais o “open office” foi o design oficial dos escritórios das empresas de tecnologia. Havia a necessidade de mostrar que todos “são iguais”, ainda que a diferença de salários fosse astronômica, já pensou que legal você sentado no mesmo ambiente do Jorge Paulo Leman separados apenas pelos bilhões de dólares na conta? E da sua cadeira olhando pra ele e acreditando que apenas a “meritocracia” alguns bilhões na conta e poucos metros de espaço lhe separam dele? Santa ingenuidade.

Havia a tentativa de explorar um conceito que os ingleses e os norte-americanos chamam de “serendipity”, ou como o acaso, o imponderável faz com que pessoas se encontrem e projetos profissionais ou relações pessoais floresçam.

Passados já quase 20 anos dessa nova iteração do “open office”, me parece cada vez mais claro que a ideia não é boa, afinal quanto tempo perdemos tendo de escutar conversas não relacionadas com o trabalho, narrativas do fim de semana do colega próximo ou as piadas sem graça e ainda ter de sorrir? Quantas vezes nosso trabalho é interrompido por alguém que acredita que seus comentários esportivos são fundamentais para o andamento do nosso trabalho? (como se já não bastassem as dezenas de programas esportivos na tv ou internet).

Comprovadamente a suposta facilidade de interação não passa de fato de um mito. Na lógica da sociedade da desatenção, os meios para distração e perda de foco se proliferam, e são amplificados por nossos colegas e suas piadas em seus smartphones. Ethan Bernstein, professor da Harvard Business School, no artigo “A verdade sobre ‘open offices’”. Quando empresas analisadas por Berstein trocaram a arquitetura dos seus escritórios para o “open office”, as interações caíram 70%. Ainda me socorrendo do Guilherme Felitti no podcast já citado, “Em 2011, o psicólogo organizacional Matthew Davis revisou mais de cem estudos sobre ambientes corporativos. Ele descobriu que, ainda que o ‘open office’ incentivasse um senso simbólico de missão organizacional, fazendo com que funcionários se sentissem parte de uma empresa inovadora e relaxada, ele estava prejudicando a atenção, a produtividade, a criatividade e a satisfação dos trabalhadores. Comparado aos escritórios padrão, funcionários experimentavam mais interações não controladas, níveis mais altos de estresse e mais baixos de concentração e motivação. Quando David Craig fez uma pesquisa com mais de 38 mil funcionários, descobriu que as interrupções dos colegas eram prejudiciais à produtividade e quanto mais antigo o funcionário, mais ele sofria”, escreve Maria Konnikova numa reportagem da The New Yorker sobre escritórios abertos. Outro estudo mostrou que os ‘open offices’ são ruins para todos, mas especialmente para as mulheres.”

Nesse momento, com a volta aos escritório, se você gasta duas horas do seu dia entre se arrumar e se deslocar para o trabalho, após 10 anos essas duas tarefas consumiram 4.840 horas da sua vida, logo imagine que em 10 anos o trânsito e o se arrumar para ir ao trabalho podem ter levado de você cerca de 302 dias se descontarmos 8 horas normais de sono.

Isso mesmo o repensar a forma de trabalhar, com trabalhos híbridos quando eles são possíveis, afinal nem todas as tarefas nos permitem essa mudança, pode representar mais de um ano de ganho em apenas 10 anos.

A possibilidade de trabalhar de forma híbrida é uma das boas heranças que a pandemia nos proporcionou, é claro que isso só pode e deve ocorrer desde que tenhamos ganhos de produtividade e não como desculpa para funcionários fantasmas que ficam em suas casas assistindo a canais de streaming em horário de expediente, trabalhar de casa ou de qualquer outro lugar que evite longos deslocamentos é possível com as diversas formas de controle de produtividade já disponíveis do mercado, e esse hibrido será distinto de acordo com cada função e com cada local de trabalho, não existindo uma regra única. O certo é que a sustentabilidade do planeta ganha e muito com menos carros circulando em nossas ruas, imitindo menos gazes e tornando as nossas cidades mais tranquilas com ganho tão almejado na nossa qualidade de vida.

A transformação digital é tão inevitável quanto o impacto nas nossas relações sociais e econômicas.

Só a inovação cultural que aposta nas pessoas e nos seus processos produtivos se mantém, a inovação permanente não é mais um diferencial, mas um pré-requisito para se manter vivo no mercado, onde a inovação é uma estrada obrigatória.

Curiosamente, conforme a informática foi avançando, a iniciativa privada vai reduzindo suas estruturas físicas, veja como exemplo as agências bancárias? Isso para ficarmos em um só exemplo, dos diversos segmentos da economia que foram se reinventando através da digitalização. Na contramão do mundo, legislativo e judiciários ampliaram suas estruturas físicas, criando sempre mais e mais estruturas, e com isso fazendo suas despesas crescerem, sem que isso se traduza em uma vontade social.

A pandemia ofereceu oportunidade para reflexão, mas exige uma rápida tomada de decisão, no propósito de ofertar serviços melhores para todos, principalmente para os cidadãos que pagam por toda essa estrutura.

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