A SOCIEDADE DA DESATENÇÃO

No momento em que você iniciou a leitura desse texto, quantos outros textos estavam disputando a sua atenção? Textos, fotos, vídeos, músicas, a era da informação marca também um excesso de conteúdo sobre absolutamente tudo que se possa imaginar, e até o que não se imagina.

É tanto conteúdo que entre as empresas mais valiosas do mundo está o Google, um indexador de conteúdo, uma ferramenta que nasceu como buscador, e hoje utiliza a inteligência artificial para aperfeiçoar seus algoritmos e ofertar a você uma pesquisa mais precisa, afinal quanto maior a assertividade na ferramenta de pesquisa maior será a sua atenção as páginas por ele indicada, e logo quanto melhor o resultado maior a fidelidade em mais pesquisas, pesquisas que geram dados, que nos levam à conteúdos, que ampliam o nosso tempo de uso da ferramenta e que por gerarem mais tempo acabam gerando mais dados.

Logo essa economia baseada em precisão de dados no resultado da busca que se traduz em mais tempo, e logo tempo são mais dados pois quanto maior a audiência maior será a divulgação comercial, e logo mais conversão para os anunciantes. É um caminhar em círculos, melhores pesquisas, que levam melhores resultados, que levam a melhores indicações para o assunto pesquisado e para quem pesquisa. Sim se eu e você pesquisarmos exatamente o mesmo assunto, o resultado da pesquisa será certamente distinto.

Ficou em dúvida? Então experimente digitar a palavra democracia em um indexador como o google, faça um print das páginas que aprecem sem serem patrocinadas (aquelas primeiras que aparecem na pesquisa como anunciantes) e depois pegue o seu irmão, ou pai e peça pra ele pelo celular dele entrar no google e fazer a mesma pesquisa (mesma palavra), você vai perceber que o ajuste fino do algoritmo, considerando a experiência de navegação de cada um dos dois irá produzir um resultado diferente para a mesma palavra.

Isso decorre do histórico de visitas, click e consultas de cada um registrados no seu IP, conforme você navega vai deixando pegadas das suas preferências, e conforme digita seja nas buscas, ou comentários nas redes sociais vai permitindo que essas plataformas conheçam você ainda melhor.

Essa lógica, da era da informação que criou uma sociedade denominada por muitos como “a sociedade da informação” com o passar do tempo passou a gerar tanta informação, sobre as mais diversas plataformas, e assim nunca foi tão fácil produzir conteúdo, sejam eles por vídeos, textos, áudios, e assim com tanta informação e tanta facilidade para produzir todo e qualquer tipo de informação, acabamos por evoluir por uma sociedade que se sustenta pela sua atenção, e logo criou o termo “economia da atenção, que por razões óbvias me permite chamar de “sociedade da desatenção”, ou “economia da desatenção”

Como bem destaca Eli Pariser: “Recebemos um serviço gratuito, e o custo são informações sobre nós mesmos. E o Google e o Facebook transformam essas informações em dinheiro de forma bastante direta.” Embora o Gmail e o Facebook sejam ferramentas úteis e gratuitas, também são mecanismos extremamente eficazes e vorazes de extração de dados, nos quais despejamos os detalhes mais íntimos das nossas vidas. O nosso belo iPhone novo sabe exatamente onde estamos, para quem ligamos, o que lemos; com seu microfone, giroscópio e GPS embutidos, sabe se estamos caminhando, se estamos no carro ou numa festa.”

De forma quase romântica, muitos acreditam que toda essa possibilidade de participação na internet, é fruto da democratização, se esquecendo que ela segue a lógica comercial da “economia de atenção”, onde todos somos convidados a entregar novos conteúdos(dados), através da publicação de comentários, artigos, fotos, vídeos e curtidas, tudo na lógica de receber todos esses dados de forma gratuita, e usando seu tempo e seu trabalho voluntário para gerar mais atenção de seus amigos, parentes e colegas, escalonando mais dados, mais publico e principalmente mais desinformação, pois se todos podemos escrever e quase tudo pode ser escrito, fizeram das Fake News um negócios, onde ingênuos e apaixonados compartilham a desinformação.

Com o tempo essa esperança, como destaca Parisier, de que a “internet iria redemocratizar completamente a sociedade. Blogueiros e os chamados “jornalistas cidadãos” iriam reconstruir os meios de comunicação com as próprias mãos. Os políticos só poderiam concorrer nas eleições se contassem com ampla base de apoio, recebendo pequenas doações de pessoas comuns. Os governos locais se tornariam mais transparentes e teriam de prestar contas aos cidadãos. Contudo, esses tempos de conectividade cívica com os quais eu tanto sonhava ainda não chegaram. A democracia exige que os cidadãos enxerguem as coisas pelo ponto de vista dos outros; em vez disso, estamos cada vez mais fechados em nossas próprias bolhas. A democracia exige que nos baseemos em fatos compartilhados; no entanto, estão nos oferecendo universos distintos e paralelos. Minha sensação de desconforto ganhou corpo quando notei que meus amigos conservadores tinham desaparecido da minha página no Facebook. Na política, eu tenho inclinações de esquerda, mas gosto de saber o que pensam os conservadores; por isso, fiz algum esforço para formar amizades com conservadores e os adicionei como contatos no Facebook. Eu queria saber que links eles iriam postar, queria ler seus comentários e aprender um pouco com eles.” (from “O filtro invisível: O que a internet está escondendo de você” by Eli Pariser).

Essa leitura de Eli Parisier, do distanciamento das opiniões diferentes, segue a mesma lógica, criamos bolhas de iguais, afinal muita diferença gera ódio, raiva, em tempos de político extremos raivosos e irascíveis que fomentam a desinformação e todo esse barulho(excesso de informação) criou o espaço onde todos gritam e ninguém se escuta, faz com que a conversão de anúncios e vendas seja a cada dia mais difícil. Tanta informação, tantas vozes que gritam, criando as “verdades convenientes”, ou melhora gerando as “mentiras que muitos gostariam que fosse verdade”, mas quem se interessa pela verdade na sociedade da informação gerada por todos e monetizada pelas plataformas?

Lembro que, toda transformação tecno econômica significativa na história foi associada a, se não induzida por, um fundamento cultural específico. Esse foi o caso da ética protestante como espírito do capitalismo, na formulação de Max Weber. A ascensão de uma economia em rede, correlativa ao paradigma tecnológico do informacionalismo enraizado na revolução das tecnologias de informação, portanto, deve ter tido suporte de uma nova formação cultural. Qual é essa formação?

Como destaca Byung Chul Han, em seu livro, “No Enxame” : “informação é cumulativa e aditiva, enquanto a verdade é exclusiva e seletiva. Diferentemente da informação, ela não produz nenhum monte [Haufen]. É que não se é confrontado com ela frequentemente. Não há massas de verdades, [mas] há, em contrapartida, massas de informação. Sem a negatividade se chega a uma massificação do positivo. Por causa da sua positividade, a informação também se distingue do saber. O saber não está simplesmente disponível. Não se pode simplesmente encontrá-lo como a informação. Não raramente, uma longa experiência o antecede. Ele tem uma temporalidade completamente diferente do que a informação, que é muito curta e de curto prazo.”

Informação, nem sempre é conhecimento e muito menos sabedoria, e se a informação é de péssima qualidade o que esperar dessa nova formação cultural?

Vejamos nossos celulares, e o seu uso onde de tanta informação que se recebe, das inúmeras redes sociais onde se curti sem ler, se compartilha sem pesquisar, a lógica da economia da Atenção, foi gerar a “Sociedade da Desatenção”, muito barulho, pouco fruto de qualidade de conteúdo resultando em pouca atenção.

Vejamos a importância do design na disputa pela sua atenção, onde um dos maiores problemas de usabilidade nos últimos tempos, é o gerenciamento das notificações, dos inúmeros aplicativo, onde todos os aplicativos, seguindo a lógica querem a sua audiência.

Em muitos aspectos, estamos enfrentando um problema construído por nós mesmos: instalamos aplicativos como se não houvesse amanhã e claramente acima de nossas possibilidades de gerenciá-los, e acabamos completamente distraídos de vez em quando pelo som, vibração ou o balão vermelho de plantão que nos avisa que há interações ou conteúdo que exigem nossa atenção. O resultado é um estado de distração permanente, uma dificuldade de focar em uma tarefa específica e, em geral, um maior nível de insatisfação e cansaço.

A evolução é, por outro lado, muito interessante: quando instalamos um aplicativo, o normal é que o façamos com a configuração padrão que ele solicita. Sendo uma sugestão do próprio app que estamos instalando, seria razoável pensar que a configuração que ele propõe é a que o torna o centro da nossa atenção, como se fosse o único aplicativo que importa, mas ninguém para de pensar isso, porque na realidade, no mundo dos aplicativos, tendemos a pensar que há apenas dois níveis: o de nos notificar imediatamente sempre que houver algo novo, ou o de não fazê-lo e se enterrar nas profundezas de nossa indiferença.

Claro, esse não é o caso, nem deveria ser. Na realidade, o que devemos fazer é uma gestão muito mais proativa de nossas notificações, com base em uma série de parâmetros como o dispositivo em que eles estão instalados (não é o mesmo para falar sobre o computador, no qual focamos nossa atenção quando temos isso à nossa frente, do que o smartphone, que carregamos em todos os momentos e que é uma verdadeira “arma de distração em massa”), o nível de criticidade ou o tipo de notificação. Para ter a dimensão dessa “desatenção” com o conteúdo, seja ele foto, texto ou vídeo experimente ver quantas curtidas são dadas nas redes sociais, com um comportamento de apenas registar que viu, ainda que sem ver, são centenas de curtidas, onde muitos acreditam ser audiência, na ingenuidade dos tempos digitais.

Mas temos autonomia para mudar ou atenuar isso? Existem aplicativos, como é o caso do Instagram ou de todas as redes sociais (o Facebook simplesmente desinstalou há muito tempo), para o qual eu simplesmente excluo todas as notificações: sou eu, não eles, que decide quando tenho um tempo para olhar para elas. Outros têm balões, mas intencionalmente. E você? Você gerencia suas notificações ou elas as gerenciam para você? Como você faz isso?

Experimente olhar ao seu redor, no parque ou na praia, “a desatenção, pela disputa da atenção” A cena sempre se repete, onde em muitas vezes “Em frente a toda beleza do mar, ele permanece catatônico diante da tela do celular, seus filhos imprudentemente avançam sob as ondas do mar e ele permanece assim, absorto diante da tela do seu aparelho. Não olha o mar, os filhos, a esposa, tudo parece perder sentido e necessidade diante de um apurado design de tela onde o mundo de carne e osso parece ser tão distante, e o sorriso fácil para magnânima tela parece ser uma catarse.

Mude de lugar, saia da praia, veja no restaurante, na sala da sua casa, no encontro de amigos ou no jantar de família, nada parece perturbar a paz da zumbilândia diante das suas telas e seus designs milimetricamente estudados para prender a sua atenção, tanta atenção que produz como resultado a desatenção, são olhares mais rasos sim, pois quem se interessa em ser profundo?

Até que ponto nós devemos ou conseguimos ter uma vida saudável diante de todos esses celulares?

Olhe seus filhos andando pela casa com os olhos fixos nas telas e tente imaginar se é diferente nos outros lugares como rua, pátios de escola e em breve ao volante.

O permanente hábito criou uma relação quase que orgânica entre nós e esses dispositivos, que a cada dia, tristemente, parece ser a extensão dos nossos corpos e assim, eles invadem todos os ambientes da casa ao trabalho e caminham velozmente para se transformar em um problema de saúde pública.

E assim a tecnologia parece ter criado um fosso entre os que a dominam a mídia social com todos os seus recursos e os que não dominam (os novos excluídos), nessa nova ditadura das redes.

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