A PRISÃO DAS REDES SOCIAIS

As relações em sociedade, por si só geram padrões que viram referência, e quase sempre pensar e agir fora desses padrões cobra um elevado preço, seja pela exclusão, ou pela indiferença.

Se por séculos os padrões eram uma harmonização social por vezes distante, ditadas por nossa herança cultural que inspiravam o modelo de família e de convívio relacional, com a internet, e o seu aprofundamento comunicacional através das redes sociais, mudou-se o conjunto de pressão valorativo estético, onde os “amigos digitais” e suas postagens constantes de fotos e vídeos, impõem suas rotinas de bares, restaurantes, barcos, corpos e famílias perfeitas com a ajuda tecnológica de generosos filtros, procurando assim impor a nova ditadura da estética social.

Afinal o que leva as pessoas a fazerem parte de uma rede social, ou até de diversas ao mesmo tempo? Com o tempo a segmentação passou a ser o ingrediente maior na estratégia dessas redes para se ajustarem aos diversos gostos, hábitos e faixas de idade, em grupos cada vez mais segmentados, e com comportamento semelhante, na edificação de nítidas bolhas, onde muitos acreditam que o seu universo é o de todos.

É nessas redes, que viraram plataforma de comunicação o lugar onde se constroem de um dia para outros novos “mitos” com discurso que unem semelhantes em causas antigas de velhas bandeiras, desatualizadas do contexto mundial, onde muitos se agarram como salvação de suas vidas e do seu país, fazendo que de uma hora pra outra questões que nunca haviam sido vistas como um problema real, ganhem o peso de salvação da lavoura (ficamos no voto impresso como um só exemplo, que tão rápido como apareceu como pleito também desapareceu no momento em que os bots foram postos pra dormir).

Muitos são os motivos que nos levam a entrar em redes sociais, e entre tantos, a vaidade tem seu lugar de destaque, parecendo funcionar feito fermento, catalisando seus efeitos e resultados.

Se não tivéssemos vaidade, o que seria dos filtros e ajustes tecnológicos nas fotos? Tem gente que faz tanto ajuste que é humanamente impossível reconhecer o amigo ou conhecido. Fazemos parte das redes sociais, quase sempre por puro prazer, ainda que para alguns seja uma tortura, e quem disse que não há prazer na dor?

Por vezes ficamos distante delas, outras vezes entramos para registro e ficamos lá em silêncio, observando o filme que passa na nossa timeline, afinal o silêncio, nem sempre é consentimento, pode ser apenas proteção de tanto ruído.

Do outro lado nosso silêncio aborrece alguns, com o argumento que em silêncio não interagimos, o que para tantos não faz sentido, pois se não postamos nada que faça ruído porque estamos ali então? O que acaba virando uma ditadura comportamental de muitos perfis.

Estimular o ruído de forma incessante, nessa sociedade que parece ter pavor do silêncio, tem virado regra, pois pra esses o barulho é um estímulo. Tudo feito para chamar a atenção, e logo quando todos procuramos chamar a atenção, geramos tanto barulho que ninguém se ouve e ao mesmo tempo acabamos por criar a “sociedade da desatenção” onde fica humanamente impossível prestar atenção em algo.

E logo é cada dia mais comum procurarmos o silêncio e como disse o pesquisador Breton “O silêncio é uma forma de resistência. Somos um espírito que habita um corpo e não o contrário. E só com silêncio acessamos essa fonte espiritual que está em nós. O ruído da pós-verdade não nos deixa sair do fluxo incessante de estímulos, e cada vez nos atolamos mais.”

Em meio a celulares viciantes, que são lidos na rua, nas praças, nas filas e, acredite, em carros em movimento por motoristas irresponsáveis virou vício estar de olho na tela, não importando a inconveniência do lugar e do horário.

É nessa sociedade de fluxo informacional intenso e desmedido que reside na velocidade das redes sociais, dos aplicativos, parte da nossa inquietude, onde quem não curte, não responde ou não interage parece ser indiferente.

Criamos assim o conceito da indiferença digital, onde o tempo de resposta mudou para uma conveniência de aflitos, onde tudo nos deixa inquietos, uma inquietude prejudicial à saúde e as relações humanas.

Quem já não escutou um parente reclamar que não curtimos suas publicações? Como se a simples curtida fosse efemeramente um sinal de afeto ou concordância?

Logo, dentro desse padrão estético relacional, acabamos por compartilhar o que não lemos e assim aceitamos a sedução do conteúdo e da imagem como verdade, pois ela nos conforta no momento de angústia, nos iludindo com o que eu chamo de curtidas protocolares, o que antigamente poderia ser resumido na frase: “rir pra não perder o amigo”.

E pra ter mais curtidas, não nos faltam recursos ofertados pelos aplicativos, na ditadura da aceitação digital, com o propósito de consumir e ser consumido, na frugalidade de likes conseguidas com fotos manipuladas por novos softwares e filtros em que diminuímos as bochechas do rosto, damos uma “emagrecidinha” na barriga ou iluminamos o rosto com um blush mágico, fazem-nos acreditar naquela persona digital que criamos. E logo estamos presos nas bolhas da pós-verdade, dando início a um ciclo vicioso

A tecnologia parece ter criado um fosso entre os que a dominam a mídia social com todos os seus recursos e os que não dominam (os novos excluídos), nessa nova ditadura das redes. E assim majoritariamente buscam ser jovens, alegres, sociáveis. É óbvio que isso é histórico e também inerente ao ser humano. Não faltam casos do Rei Sol a Cleópatra que banhava-se em leite para manter a pele jovem, leite que escravos tinham que trazer para seu deleite ou Maria Antonieta, no século XV na França, que não economizava em festas que duravam dias, enquanto os franceses morriam de pestes e fome.

As prisões digitais (redes sociais), elegem no seu tempo e na sua atenção e moeda com que elas se alimentam, e assim as pressões sociais foram catalisadas.

No último dia 04 de dezembro, uma reportagem da Katia Arima no Estadão, relatava as novas e diversas pressões que somos submetidos: ”Passar numa ótima faculdade, ter um emprego estável e com bom salário. Comprar um apartamento antes dos 30 anos, ser bonito, ser magro, um homem viril, ter dois filhos, ser uma mãe perfeita, ter um carro novo, viajar bastante – e ainda posar feliz nas redes sociais e ter muitos “likes”, claro.

Por influência da sociedade em que vivemos, as metas e exigências que determinamos para nós mesmos se sobrepõem e podem ser opressoras, a ponto de ameaçarem o nosso bem-estar emocional: trazem exaustão, perda de individualidade, sofrimento emocional com sintomas como ansiedade e pânico, com possibilidade de evoluir para transtornos psicológicos. E, com o fim do ano se aproximando, essas pressões podem crescer ainda mais.

“Ao longo da vida, várias vozes reforçam mensagens de cobrança social. Chega um momento em que você não precisa mais escutar isso, pois você já internalizou a mensagem”, diz o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral, autor do livro Exaustão no Topo da Montanha. Segundo ele, os corpos e as mentes de muitas pessoas estão hoje exauridos por conta dessa autocobrança por produtividade, fruto daquilo que ouvimos desde que somos crianças. “Na sociedade do desempenho, descrita pelo filósofo Byung-chul Han, para ter uma vida boa é preciso ser produtivo no trabalho, ter um corpo perfeito, sucesso nas redes sociais, entre outras coisas. Você é empresário de si mesmo, o dono da sua produtividade, o algoz e a vítima.”

Queixas de sobrecarga física e emocional por conta da autocobrança como reflexo da expectativa social em relação ao trabalho, à estética e às relações amorosas são comuns no consultório da psicoterapeuta Melina Danza. “Sentimentos como insegurança, medo, depreciação, estagnação, agressividade, tristeza e raiva passam a se manifestar como sintoma do colapso entre duas realidades: o que é esperado de uma pessoa e o que ela consegue de fato realizar.”

Buscar reconhecimento social não é reflexo de insegurança, mas uma necessidade básica para a saúde psíquica desde que nascemos, explica Melina. Por outro lado, é preciso tomar cuidado para não se tornar refém do julgamento alheio, além de cuidar para que a sociedade seja mais empática. Enquanto a psicoterapia pode ajudar no aspecto individual para aliviar a pressão social, é preciso estabelecer diálogo em núcleos sociais, como escolas, para trabalhar a empatia, capacidade de se colocar no lugar do outro – e, assim, evitar situações opressoras. “Há uma dificuldade de se colocar no lugar do outro, percebendo que ele pode ser diferente de nós mesmos.”

Os jovens são o público mais vulnerável à pressão social, pois buscam o reconhecimento como um apoio para a identidade, na visão da psicoterapeuta Melina. “Eles estão em um momento de transição, sofrem exigências de comportamentos para que tenham um ‘futuro promissor’, a garantia para serem aceitos na sociedade”, acrescenta.

A prisão estética comportamental, com os padrões ideologicamente dominantes pode ser gélida, e likes nem sempre representam carinho nesse novo padrão digital, eles podem ser mero protocolo de convivência, logo não se iluda, pois nada supera o abraço sincero o conversar de frente, mesmo que seja pra falar do que lhe frusta no outro, na adequação entre expectativa e realidade.

É preciso estabelecer limites e controles legais para essa desumana relação digital.

Quem procura verdades nas redes sociais? Quem procura saber o que é real e o que não é por traz daquelas fotos maravilhosas, e não falo dos filtros que elas tem, mas do sorriso alegre e plástico em algumas reuniões de famílias? Quem se interessa verdadeiramente com a dor do outro, ao ponto de parar suas tarefas pra ajudar o amigo, o irmão, o colega de trabalho, ou acalentar o coração da pessoa amada?

As redes sociais produzem muito barulho, muita desinformação e principalmente muitas projeções de avatares que nos tornamos em nossos perfis.

É lá, nas mídias sociais, que pela instrumentalidade dos algoritmos compartilhamos, curtimos e comentamos projeções de uma tentativa de verdade, seja sobre nós mesmos, ou sobre ideias e políticos que queremos defender.

Sem querer reproduzimos versões de mentiras, fantasias ou opiniões unilaterais sem escutar, compreender e entender um outro lado, afinal já escolhemos um lado, aquele que nos apresenta mais conveniente, pois refletir, questionar e pensar exige um esforço hercúleo que nos tira da nossa zona de conforto e logo é melhor aceitar como verdade o que o outro publicou, mesmo que não seja verdade, ou que seja única e exclusivamente a versão comprometida de alguém.

Vivemos prisioneiros de uma ideologia dicotomizada das redes sociais, mudando as formas de nossas grades, onde a lógica comercial dos algoritmos ditam o que você vai ver, ler e ouvir, continuamos assim envoltos de novas formas de prisões, marcados pelo massacre da alienação às ideias virtuais de massa e cada vez mais desconectados da subjetividade humana.

É preciso ressignificar a relação entre o homem e a tecnologia, pois não é o homem que está a serviço da era digital, mas sim, a era digital que está a serviço do homem.

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