A Inteligência Artificial pode criar um grande sucesso musical?

Qual seria o limite no uso da Inteligência Artificial em composições musicais? Com o evidente crescimento, na medida que mais criadores buscam ferramentas que inspirem diferentes tipos de estilos, as discussões éticas, legais e artísticas ganham volume.

Recentemente a Endel, uma empresa sediada em Berlim, dedica-se à “composição” de músicas usando algoritmos, pequenos pedaços de cerca de dois minutos e meio com backgrounds ambientais e sons relaxantes combinados e títulos sofridos como “Noite Clara”, “Noite Chuvosa”, “Tarde Nublada” ou “Manhã Nebulosa” que supostamente ajudam as pessoas a relaxar ou se concentrar, e que você pode encontrar procurando por Endel no Spotify, Apple Music ou Alexa, ou você pode gerá-lo usando seu aplicativo, que usa parâmetros como sua localização, hora, tempo atmosférico ou frequência cardíaca para criar peças personalizadas, como se percebe existe mercado pra tudo. Até o ano passado a Endel havia gerado cinco álbuns, que muitos poderiam achar monótonos e chatos, eu estou entre eles.

Poderíamos assim dizer, que com o recente contrato com a Warner, ela seria o primeiro algoritmo a assinar um contrato para a distribuição de sua música com uma gravadora, que gerou poucos comentários apocalípticos sobre a aparente distopia que isso implica. Programas de computador sendo compositores?

O fato é que o contrato da Warner não é com um algoritmo, mas com uma empresa que mantém direitos de suas criações, e que ele simplesmente assinou um acordo sem adiantamento com a gravadora para a distribuição de algumas de suas peças com uma participação nos lucros de 50%. O algoritmo da empresa gera essas peças ao apertar um botão, pode gerar até seiscentos em uma única interação combinando sons de todos os tipos com intervenção humana mínima, contrata uma empresa externa para tê-las, e o rótulo simplesmente seleciona algumas delas para distribuir como músicas através de plataformas musicais, nas quais convive com músicas normais compostas e interpretadas por artistas normais, gerando receita com base em seu número de reproduções.

Só porque a distribuição das notícias não tem sido rigorosa, no entanto, não significa que ela seja falsa ou que não seja interessante. Na verdade, o interesse das gravadoras em machine learning não é novo: eles têm usado, por exemplo, para criar e agrupar playlists contextuais ou supostamente ideais para determinadas situações em plataformas de música, a fim de aumentar o consumo de determinadas peças. Eles estão interessados na possibilidade de que essa música possa ser criada por compositores e artistas que cobram pouco ou nada, que são incansáveis, fiéis e que não exigem periodicamente a renegociação de seu contrato, isto é algo que soa perfeitamente crível.

Ao mesmo tempo, a geração algorítmica da música não precisa ter um limite, pois o fato de começar com composições desse tipo, ambientais e razoavelmente simples, não implica que um algoritmo bem treinado não seja capaz de produzir, por exemplo, uma composição pop, house ou outra, e até mesmo projetá-lo com base em sucessos anteriores. Já existem, de fato, composições mistas em que um algoritmo cria música com um artista, embora no momento eles não tenham se tornado, em nenhum caso, sucessos esmagadores. Mas os humanos são muito mais previsíveis do que pensamos ou queremos acreditar e as gravadoras são especialistas em manipular gostos de mercado simplesmente com estratégias de controle de canais e a promoção que ocorre neles, este conceito pode acabar gerando discussões mais complexas do que parece.

Uma recente matéria publicada no Estadão, destacou o mesmo fato, quando o assunto seria a criação coletiva por meio de software. Uma experiência de uma equipe de acadêmicos holandeses que, após um experimento em compor tópicos usando algoritmos de Inteligência Artificial (IA), acabou criando um novo gênero musical: o Eurovision Technofear. A equipe, Can AI Kick It, usou técnicas de IA para gerar um preditor de hits baseados nas melodias e ritmos de mais de 200 clássicos do Eurovision Song Contest, uma celebração anual da música pop e kitsch. Estes incluíram Waterloo de Abba.

Porém para criar as letras de Abuss, o tema com o qual os membros da equipe esperavam participar do concurso de música de IA este ano, eles também usaram um sistema independente de IA, baseado na plataforma de mídia social Reddit, o que acabou por desencadear um protesto.

Segundo a reportagem, como no caso de Tay, um bot de conversação em IA criado pela Microsoft em 2016 que começou a espalhar mensagens racistas e sexistas após ser treinado no Twitter, a culpa estava nas fontes de dados humanos, não no algoritmos.

Uma invasão por bots, gerando conteúdo que a equipe holandesa decidiu manter as tais “mensagens anarquistas” para mostrar o perigo de usar a IA em um ambiente relativamente livre de riscos, como o Europop.

O Concurso de Canção de IA, sim existe já mais de um concurso no mundo, organizado pela emissora holandesa VPRO, é inspirado na Eurovision

É evidente que o uso da IA em composições musicais está crescendo, à medida que mais músicos e compositores buscam ferramentas que inspirem diferentes tipos de música. O AI Song Contest,organizado pela emissora holandesa VPRO, é um dos primeiros eventos a tirar o processo de uso de algoritmos para compor música original da academia e incorporá-la ao mundo comercial, e isso só tende a crescer no médio prazo.

Tente imaginar que o próximo hit do verão pode ser criado com um apertar de botão, e lá nos créditos “autor: Algoritmo xpto”. Que mundo é esse?

Um evento que serve de referência para à música usando IA ocorreu no inverno de 2019 em Delft, uma cidade holandesa, foi lá que na 20ª conferência da Sociedade Internacional para a Recuperação da Informação Musical que seria realizada na cidade quando uma proposta foi apresentada aos assistentes acadêmicos, como sendo a primeira competição eurovision para computadores.

É óbvio que o ponto mais polêmico é a substituição do talento pela máquina e por isso devemos ter ferramentas para proteger do risco de que a IA possa, em alguns aspectos, ser usada para suplantar a criatividade humana, mas tente imaginar ou explicar o fenômeno da “música” eletrônica a 40 anos atrás?

Se no primeiro momento as empresas são atraídas pela composição musical de IA por curiosidade científica, em breve podem perceber o tamanho e o potencial desse mercado e a força das corporações em ditar a regra da música. E então onde estarão os músicos, e compositores nisso?

Antes da pandemia, um Google Doodle interativo lançado em março do ano passado encorajou os usuários a introduzir uma melodia simples. A IA, desenvolvida por Magenta, gerou composições que lembravam Bach. Em dois dias, 55 milhões de músicas foram criadas. Logo a questão que se coloca é se o uso da IA, na música se constitui em risco ou oportunidade? Ou um pouco dos dois?

Assim tente imaginar que no próximo verão o hit parade pode ser exclusivamente de músicas criadas por IA, com um algoritmo, através de um software de criação coletiva que produziu todos os novos sucessos? Não sei se isso é o futuro, mas como músico de fim de semana, não me agrada nem um pouco.

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