A GUERRA E A REDEFINIÇÃO DA ECONOMIA NO MUNDO

Guerras e crises, são sempre marcos temporais que redefinem a história, e dependendo da profundidade dessas mudanças estabelecem novos marcos históricos.

No momento em que o mundo acompanha a crise na Europa, provocada pela invasão Russa a ucrânia, existem três setores em particular que estão mais em risco: bancos, companhias aéreas e alimentos.

Sabidamente as sanções à Rússia visam um isolamento global do país no comércio internacional e nas finanças. Em retaliação, é provável que a Rússia reduza suas exportações de várias matérias-primas, como energia e produtos agrícolas. Mas quais setores estão mais expostos à crise geopolítica?

Há três setores em particular que estão mais em risco: bancos, companhias aéreas e alimentos. Em primeiro lugar, os bancos estão expostos à revisão para baixo do crescimento na Europa e à proibição do acesso dos bancos russos ao Sistema Swift. Além disso, o impacto incerto na economia europeia está fazendo com que os mercados reduzam suas expectativas de aumento das taxas pelo BCE, o que também está afetando as previsões de lucro dos bancos europeus. Os bancos mais expostos são Raiffeisen, Société Générale, Unicredit, Intesa e ING.

Por outro lado, os produtores de alimentos, bebidas e produtos domésticos são vulneráveis ao aumento dos preços das commodities, enquanto seu poder de preços é limitado. Os produtores de envasados são os mais atingidos pelo aumento dos preços das latas, enquanto os fabricantes de chocolate com maior poder de preços, como Lindt e Barry Callebaut, devem ser mais imunes a esses efeitos.

Espera-se que o fechamento do espaço aéreo russo para as companhias aéreas europeias impacte o transporte aéreo de pessoas e mercadorias. Estima-se que a medida poderia aumentar os custos das companhias aéreas europeias para voar para muitos destinos asiáticos entre 25% e 50%. As consequências podem até causar interrupções nos fluxos de carga aérea entre os dois continentes. A Finnair, seguida pela Lufthansa, AF-KLM e, em menor grau, IAG.

Em contrapartida, os produtores de energia, as concessionárias, os recursos básicos e o transporte marítimo são provavelmente os setores menos afetados pela crise. Por que? A maioria das ações ligadas ao petróleo está precificando em preços brutos em torno de US $ 60-75, por isso sua avaliação é atraente: o Índice de Energia Stoxx Europa está sendo negociado em uma relação P/E perto de 11 vezes o lucro, em comparação com 14 vezes o Euro Stoxx 600, com as empresas aumentando a rentabilidade para os investidores.

Os investidores terão que reexaminar o valor das empresas ligadas ao setor de renováveis à medida que a necessidade de independência energética se torna estratégica. Os produtores convencionais de energia também terão de atender às necessidades energéticas da Europa como resultado do declínio e potencialmente eliminação dos suprimentos russos. Até a Alemanha está considerando adiar o abandono da energia nuclear que já estava planejada, demonstrando a necessidade urgente da Europa de produção de energia.

Também não se pode ignorar que a Rússia possui uma grande parte do mercado de matérias-primas. Por exemplo, produz 14% da platina do mundo e 43% de paládio. Empresas europeias, asiáticas e norte-americanas na indústria de alumínio e siderúrgico podem se beneficiar do aumento dos preços de vendas. Além disso, a Rússia é um importante produtor de fertilizantes: é responsável por 79% das importações de fertilizantes químicos da UE e restringiu suas exportações de fosfato e nitrogênio. Mas as empresas americanas e asiáticas poderiam substituir algumas das exportações russas.

Por fim, o transporte de mercadorias marítimas deve ser menos afetado: as importações de gás natural liquefeito da Europa devem aumentar, assim como as do carvão e de outros minerais para substituir as entregas russas.

Porém lembro que a dívida externa do setor empresarial russo é três vezes maior que a do setor público, e logo se o governo russo optar por não pagar os juros de sua dívida em dólares ou fazê-lo em rublos, o que estamos assistindo, isso equivale a um calote, o que pode indicar um caminho, para as grandes corporações russas que têm problemas no mercado internacional, o que já sabe deve afetar significativamente os bancos europeus expostos a essas dívidas.

A dívida externa total desses grupos chega a US$60 trilhões, importância que triplica o passivo público do Estado russo para investidores estrangeiros.

A situação é o oposto da de 1998, a data do último default de Moscou, que então parou de lidar com títulos rublos. A dívida do governo russo era equivalente a 135% do PIB, contra 19% em 2021, e as obrigações com instituições internacionais eram de US$ 150 bilhões, sete vezes mais do que hoje.

Ou seja, neste momento há mais risco de crédito no setor privado russo do que no setor público. Muitas dessas empresas são vistas entre dois incêndios: as sanções internacionais limitam seu acesso ao sistema financeiro para cumprir suas obrigações, e, por outro lado, Moscou exige que eles minimizem o uso de moeda estrangeira para defender o rublo, como o próprio Putin faz.

A guerra evidencia um redesenho, com diversos países procurando diminuir sua dependência de poucos fornecedores, isso já ocorre na indústria dos chips, que fez com que a economia andasse de lado nos últimos dois anos redesenhando a produção de muitos setores, e nesse momento busca transforma o mercado de energia e agrícola.

Um período de mudanças, pós pandêmicas alterando as inúmeras certezas que a globalização trouxe, e escancarando o seu lado mais nefasto.

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