A ECONOMIA DA DESATENÇÃO SÓ É FAVORÁVEL AS PLATAFORMAS, COMO ENFRENTÁ-LAS?

Com a presença a cada dia mais significativa em nossas vidas, as plataformas digitais como, Facebook, Google, Apple, Amazon entre outras big techs, vem modificando a economia, como são empresas voltadas para a “Economia Da Atenção” acabam rivalizando com toda indústria tradicional, logo a briga pela atenção é antes de mais nada uma disputa pelo seu bolso, pois sua audiência para essas plataformas representa mais receita.

Esse comportamento, que aniquilo todo e qualquer tipo de concorrente que dispute o mesmo bolso, lembre-se o concorrente de uma plataforma digital não precisa ser outra plataforma, mas qualquer outra opção de produto ou serviço que fisgue o bolso do consumidor.

E é justamente esse conjunto de ferramentas digitais que atuam com o propósito de aferir mais receita, aferindo mais tempo e logo mais dados, é que vem provocando uma reação da economia tradicional (faço essa classificação apenas para melhor visualizar) afinal só existe economia, as classificações são apenas uma forma didática de melhor apresentar. Essa concentração de receita advinda de publicidade e da venda por marketplaces vem provocando a ira de setores tradicionais.

A reconhecida empresa britânica de cosméticos, a Lush anunciou sua decisão de abandonar várias das redes sociais nas quais participou, ou seja, Facebook, Instagram, TikTok e Snapchat, justificou a sua decisão em preocupações sobre os supostos efeitos que podem ter sobre a saúde mental de seus usuários. A marca manterá sua presença em redes como Twitter e YouTube.

A marca, com mais de 900 lojas em todo o mundo, tem entre Facebook e Instagram cerca de 10,6 milhões de seguidores e estima-se que abandoná-los poderia ter um impacto de cerca de dez milhões de libras em vendas, mas seu cofundador e CEO, Mark Constantine, declarou categoricamente que após as revelações sobre o impacto psicológico que essas redes sociais têm sobre as meninas jovens, que representam uma porcentagem significativa de seus usuários, “ficarão felizes em perder esses dez milhões de libras” por tomar essa decisão.

“Quando chega um ponto em que o bem-estar de nossos clientes é prejudicado por causa dos canais que tentamos nos conectar com eles, há algo que não se encaixa bem conosco.”  De fato algo não cheira bem, quando toda a estratégia reside em mais tempo e mais dados dos consumidores.

A opinião de muitos executivos, é que continuar participando dessas redes sociais, é ser de alguma forma, cúmplice em suas ações. As revelações dos chamados arquivos do Facebook apontaram que a empresa não só sabia os supostos efeitos de suas ferramentas sobre a saúde mental de seus jovens usuários, mas também decidiu ignorar completamente conscientemente esses efeitos. 

Alguns críticos dizem que a decisão também pode ser influenciada por algumas campanhas de mídia social no passado em que ela foi culpada por doações a associações feministas com atitudes críticas em relação ao coletivo trans, ou por alegações sobre o tratamento de alguns de seus trabalhadores na Austrália. mas a empresa anunciou que tentará encontrar outros canais de comunicação mais adequados.

Em 2019, a Lush também anunciou seu abandono das redes sociais no  Reino Unido argumentando que não era mais um canal adequado para o diálogo com seus clientes, embora posteriormente acabasse retornando a eles. A saída das redes sociais não é uma decisão fácil para qualquer empresa, especialmente para fins de conexão com sua base de clientes e projetar campanhas publicitárias, e sustentar a decisão baseada em um sentimento de responsabilidade sobre os efeitos que causam em seus usuários, quase como uma ação de responsabilidade social corporativa, possivelmente uma das razões mais importantes para considerar tomar essa decisão.

Empresas como o Facebook se sustentam e podem manter sua atitude irresponsável não tanto com base em seu número de usuários, mas sim graças ao apoio incondicional das empresas que os usam para sua comunicação com seus clientes e para suas campanhas publicitárias, nas quais conseguem segmentar por variáveis de todos os tipos que nunca poderiam usar se os levantassem em outras mídias. Algo fede nas redes sociais lastreadas na sua “atenção”. E se algumas empresas começarem a anunciar seu abandono das redes sociais com base em princípios éticos e responsabilidade social corporativa, pode ser uma verdadeira dor de cabeça para seus gestores. Veremos a atitude de empresas como a Lush se tornar generalizada no futuro?

A disputa pelo seu tempo, com total falta de ética no desenvolvimento de um design que lhe aprisiona, tomando a sua atenção, seu tempo e seus dados pode estar com os dias contados?

Teremos então um enfrentamento a economia da “desatenção”?

Lembre-se, que no momento em que você iniciou a leitura desse texto, quantos outros textos estavam disputando a sua atenção? Textos, fotos, vídeos, músicas, a era da informação marca também um excesso de conteúdo sobre absolutamente tudo que se possa imaginar, e até o que não se imagina.

É tanto conteúdo que entre as empresas mais valiosas do mundo está o Google, um indexador de conteúdo, uma ferramenta que nasceu como buscador, e hoje utiliza a inteligência artificial para aperfeiçoar seus algoritmos e ofertar a você uma pesquisa mais precisa, afinal quanto maior a assertividade na ferramenta de pesquisa maior será a sua atenção as páginas por ele indicada, e logo quanto melhor o resultado maior a fidelidade em mais pesquisas, pesquisas que geram dados, que nos levam à conteúdos, que ampliam o nosso tempo de uso da ferramenta e que por gerarem mais tempo acabam gerando mais dados.

Logo essa economia baseada em precisão de dados no resultado da busca que se traduz em mais tempo, e logo tempo são mais dados pois quanto maior a audiência maior será a divulgação comercial, e logo mais conversão para os anunciantes. É um caminhar em círculos, melhores pesquisas, que levam melhores resultados, que levam a melhores indicações para o assunto pesquisado e para quem pesquisa.

Essa lógica, da era da informação que criou uma sociedade denominada por muitos como “a sociedade da informação” com o passar do tempo passou a gerar tanta informação, sobre as mais diversas plataformas.

Nunca foi tão fácil produzir conteúdo, sejam eles por vídeos, textos, áudios, ao mesmo tempo nunca foi tão difícil obter sucesso.

E assim com tanta informação e tanta facilidade para produzir todo e qualquer tipo de informação, acabamos por evoluir por uma sociedade que se sustenta pela sua atenção, e logo criou o termo “economia da atenção, que por razões óbvias me permite chamar de “sociedade da desatenção”, ou “economia da desatenção”.

Tanto conteúdo, para chamar à sua atenção, acabou gerando exatamente isso, “desatenção”.

O universo digital é farto de estratégias matreiras, para obter de forma sorrateira os seus dados, seja para lhe ofertar produtos e serviços, ou para de forma criminosa se aproveitar das suas falhas de segurança e lhe aplicar golpes lesando os mais ingénuos.

São essas estratégias, que transformam após um clicar ingênuo, em verdadeiro inferno a vida do usuário, criando uma péssima “experiência do usuário” que invariavelmente só muda o tom do dissabor.

E qual o resultado de tanto conteúdo, nas diversas formas e plataformas? Como se comporta a sua mente? Podemos concluir que esse excesso, produz como resultado a redução da necessidade de usar certas funções cognitivas, mas não nossa capacidade de realizá-las. Nossos cérebros não “se tornam preguiçosos” porque têm um recurso adicional para armazenar informações, eles simplesmente tomam a decisão de otimizar suas capacidades.

O problema sempre estará no tipo de intervenção que esse dirigismo provoca e o fim da nossa autonomia opinativa.

É fato, que a introdução da tecnologia, portanto, altera nosso ambiente e muda nossas funções cognitivas para que elas se adaptem adequadamente e sejam otimizadas nela, mas não destrói nada: ela simplesmente realiza uma funcionalidade de descarga cognitiva que libera recursos para outras tarefas cerebrais.

Qual o tempo que diariamente, celulares, tablets, computadores e outros gadgets vem prendendo a sua atenção? E qual o limite do saudável?

Até que ponto a sua atenção dispensada decorre da necessidade ou de uma estratégia de marketing neural detalhadamente desenvolvida?

Como todo e qualquer uso em demasia ele pode sim ser prejudicial, mas no caso do inadequado uso social, ele é mais ainda prejudicial a construção de uma relação saudáveis entre pais e filhos, marido e mulher ou entre colegas de trabalho.

Quando a Associação de Psiquiatras norte americana publicou a sua quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, feito em 2013, incluiu pela primeira vez a dependência comportamental como uma patologia diagnosticada. Isso claro, nos leva de volta ao autor que depois de revisar os principais títulos da literatura psicológica e entrevistar inúmeras pessoas influentes no mundo da tecnologia, percebeu que dois fatores ficavam evidenciados. Primeiro, as novas tecnologias são desenvolvidas com ênfase a promover vícios comportamentais ligados à tecnologia, que tendem a ser moderados em comparação com as fortes dependências químicas causadas por drogas e cigarro. Não à toa que as pessoas costumam dizer que o celular é a nova nicotina.

Assim como a maioria dos aplicativos, o Facebook é feito tem uma arquitetura estudada para que as pessoas passem o maior tempo possível(sociedade da atenção). E assim funciona com todas as redes sociais, elas precisam que você fique muito tempo, quanto mais tempo e quanto mais participação e interação nessa rede social, mais dados ela vai poder ter e com isso identificar seus hábitos e construir e ofertar produtos que melhor caibam no seu bolso ou gosto.

Logo, acima desses estudos, surge um grande questionamento: Até que ponto nós devemos ou conseguimos ter uma vida saudável diante de todos esses celulares?

Olhe seus filhos andando pela casa com os olhos fixos nas telas e tente imaginar se é diferente nos outros lugares como rua, pátios de escola e em breve ao volante.

O permanente hábito criou uma relação quase que orgânica entre nós e esses dispositivos, que a cada dia, tristemente, parece ser a extensão dos nossos corpos e assim, eles invadem todos os ambientes da casa ao trabalho e caminham velozmente para se transformar em um problema de saúde pública.

E assim a tecnologia parece ter criado um fosso entre os que a dominam a mídia social com todos os seus recursos e os que não dominam (os novos excluídos), nessa nova ditadura das redes.

Na tentativa de se comunicarem os indivíduos contemporâneos buscam freneticamente satisfação, mas que não represente um aprisionamento, afinal, não se pode ter a certeza da escolha correta.

É preciso que mais empresas como a Lush façam esse enfrentamento, para discutir o que é saudável, o que é legal e o que precisa mudar.

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