007 JAMES “PUTIN” E A ESPIONAGEM DIGITAL

Segundo a Microsoft, no final do mês de outubro, a principal agência de inteligência russa lançou uma nova campanha para se infiltrar em milhares de redes de computadores do governo dos EUA, de empresas e de institutos de pesquisa e pensamento.

A palavra “espionagem” vem da palavra francesa espionner, que significa “espionar”, e do italiano clássico spione. A palavra spy é originária de várias palavras antigas significando “olhar e observar”, como no latim specere.

Bem, espionagem é o nome que se dá ao ato de colher clandestinamente informações sigilosas de posse de um governo, entidade ou indivíduo sem a permissão do titular da informação. Trata-se de uma prática ilegal e punível por lei, desde a antiguidade. Desde a antiguidade. Os assírios mantinham de Polícia Secreta chamada de “Olho do Rei”, homens que viajavam sob disfarce fazendo amizades, estabelecendo contatos e se misturando à população. Os persas não apenas aprenderam este método como o copiaram.

No Extremo Oriente o ato de “espiar”, ou seja, observar sem ser notado, no clássico Arte da Guerra. Ali, Sun Tzu lá encontramos: “Se um soberano iluminado e seu comandante obtêm a vitória sempre que entram em combate e alcançam feitos extraordinários, é porque eles detêm o conhecimento prévio e podem antever o desenrolar de uma guerra”. Seguindo em seu raciocínio, Sun Tzu estabelece cinco tipos de informantes, “(…) pessoas que, claramente, conhecem as situações do inimigo” as quais. um general deveria aprender a mobilizar: os Nativos, que vivem no território inimigo; os Internos, que servem na burocracia ou exército inimigo; os Duplos, que são espiões do inimigo que aceitem trabalhar para nós; os Dispensáveis, espiões para os quais se dará informações falsas a fim de permitir que seja pego pelo inimigo, e os Sobreviventes, que são pessoas capazes de penetrar e retornar continuamente no território inimigo.

Avançando um pouco, as duas guerras mundiais ampliaram as demandas tecnológicas acerca do trabalho de coleta de dados, e envolveu trabalhos intensos de infiltração, recrutamento de informantes e fomento de conflitos irregulares atrás das linhas inimigas. E posteriormente a “Guerra Fria”, deu outros tons, e claro que com tanta tecnologia disponível, seria natural que a espionagem tivesse um novo capítulo principalmente sob o comando de Putin.

O trabalho do espião envolve riscos constantes, e tanto seus sucessos como fracassos foram decisivos em alterar o curso da história mundial. Enquanto algumas dessas informações, conhecidas como inteligência, podem estar disponíveis, a maioria dos países guarda uma quantidade considerável de segredos, e essa informação secreta é quase sempre a mais valiosa. Para obter acesso a tais informações, a única alternativa na maioria das vezes é a espionagem, uma mistura de subterfúgio, traição, tecnologia e análise de dados. Mais recentemente até o desenvolver de novas vacinas tem sido objeto de espionagem.

A espionagem sempre estimulou a sétima arte, e casos de espionagem e espiões deram título e conteúdo para filmes e séries em um número sem fim.

Mata Hari, conhecida como “a espiã que amava” se tornou um símbolo da ousadia feminina. Sua história começou nos cabarés parisienses em 1905. A holandesa nascida como Margaretha Gertudre Zelle, contava ser indiana e filha de uma dançarina do deus Shiva. Seu nome artístico significava sol, ou mais literalmente Olho do dia(pura ironia). Porém, todo seu brilho e sucesso na carreira dos tablados duraram pouco. Assim, tornou-se cortesã, foi quando conheceu Georges Ladoux, um capitão da contraespionagem francesa. Convencida de entrar no ramo, usava sua sedução cativante como arma principal para conseguir informações de militares inimigos. Após duas missões fracassadas, ela foi presa e acusada de ser responsável pela morte de milhares de soldados franceses. Com isso, ela ganhou o apelido de nova messalina e acabou condenada à morte. Mata Hari foi executada por fuzilamento em 15 de outubro de 1917, aos 41 anos.

Espionar nunca saiu de moda, e os recursos digitais nunca permitiram, tanto, são tantos os novos recursos que Putin poderia bem ser o 007 russo, e não por acaso. Afinal, como já declarou a polícia secreta da Alemanha, a Stasi, possuía nos anos 80 um espião que no futuro ficaria muito famoso, o nome de: Vladimir Putin.

Recentemente, ao examinar arquivos antigos da Stasi, foi encontrada a passagem do atual presidente da Rússia, que naquela época atuava como espião soviético. Ainda quando a Alemanha era dividida entre os soviéticos e os capitalistas.

Na época, Putin estava ligado ao Comitê de Segurança da União Soviética, o KGB. Em uma análise da cooperação entre a Stasi e o KGB, o documento com a foto e a assinatura dele veio à tona. Putin era um oficial da KGB em Dresden até dezembro de 1989, quando estava na faixa dos 30 anos. Em entrevista a TV estatal russa, no ano passado, ele disse que suas ações envolviam coleta ilegal de informações e ainda acrescentou que “os espiões da KGB eram pessoas com qualidades especiais, convicções especiais e um tipo especial de personagem”. Com o documento era possível que Putin acessasse livremente os escritórios da polícia secreta, e ainda facilitava o recrutamento de novos agentes, segundo declarou o Konrad Felber, chefe da Agência de Arquivos da Stasi, ao jornal alemão Bild.

Mais do que espionar, hábito que Putin trouxe da velha União Soviética, Moscou hoje fortalece seu programa de censura, pois nesse momento Moscou bloqueia ou reduz velocidade de sites críticos, se apoia em seu regulador de internet para controlar os serviços de telecomunicações de 120 milhões de usuários

Os movimentos mais ousados da Rússia para censurar a internet começaram das formas mais mundanas: com uma série de e-mails e formulários burocráticos. As mensagens, enviadas pelo poderoso regulador de internet da Rússia, exigiam detalhes técnicos como números de tráfego, especificações de equipamentos e velocidades de conexão de empresas que fornecem serviços de internet e telecomunicações em todo o país. Em seguida, as caixas-pretas chegaram.

As empresas de telecomunicações não tiveram escolha a não ser não se intrometer, enquanto técnicos aprovados pelo governo instalavam o equipamento junto com seus próprios sistemas de computador e servidores. Às vezes preso a sete chaves, o novo equipamento era vinculado a um centro de comando em Moscou, dando às autoridades novos poderes surpreendentes para bloquear, filtrar e reduzir a velocidade de sites que não queriam que o público russo visse.

O processo, em andamento desde 2019, representa o esforço de censura digital mais ambicioso do mundo fora da China. Sob o governo do presidente Vladimir Putin, que certa vez chamou a internet de “projeto da CIA” e vê a web como uma ameaça ao seu poder, o governo russo está tentando controlar o que antes era “aberto e livre”.

Nesse momento a censura atinge a maioria dos mais de 120 milhões de usuários domésticos de internet sem fio no país. E o primeiro caso de uso desse dispositivo, ocorreu quando Twitter foi desacelerado para “engatinhar” no país. Foi a primeira vez que o sistema de filtragem foi colocado em funcionamento, segundo especialistas. Outros sites foram bloqueados desde então, incluindo vários ligados ao líder da oposição, Alexei Navalni. O risco é que esse modelo pode ser replicado em qualquer país onde pústulas no comando tenham sonhos e devaneios de ditadores.

Voltando ao ataque Russo, lembro que na ocasião, Tom Burt, que é um dos principais diretores de segurança da Microsoft declarou que : “O novo esforço é enorme e está em andamento”. As autoridades do governo dos EUA, confirmaram que a operação, aparentemente destinada a colher dados armazenados na nuvem, e tinha características de ter sido realizada pelo Serviço de Inteligência Estrangeiro (SVR), a agência de inteligência russa, aquela que que foi a primeira a invadir as redes do Comitê Nacional do Partido Democrata durante as eleições de 2016.

A Microsoft não forneceu informações suficientes para uma medição mais precisa do roubo de dados, mas lembrou que recentemente já havia notificado mais de 600 organizações que foram alvo de cerca de 23 mil tentativas de entrar em seus sistemas.

É bom lembrar, que no ano passado a Casa Branca já havia culpado o SVR pelo ataque hacker, que recebeu o nome de SolarWinds, uma operação altamente sofisticada para alterar softwares usados por agências do governo americano e as maiores empresas do país, que deu aos russos amplo acesso aos dados de 18 mil usuários. Na ocasião, Biden afirmou que o ataque prejudicou a confiança em sistemas básicos do governo e prometeu retaliação tanto pela intrusão quanto pela interferência nas eleições (os democratas não esquecem), porém quando anunciou sanções contra instituições financeiras e empresas de tecnologia russas, em abril, Biden amenizou as penalidades.

Para o leitor, que imagina ser um trabalho de 007, aviso que esse ataque é uma típica pescaria comum, e que muitas nações realizam periodicamente, nessa rede de arrasto, onde nunca se sabe o que se pode pegar, afinal hoje é bem mais barato e seguro um ataque digital do que manter centenas de células de espionagem em um outro país.

Em tempos de economia digital, internet e sistemas interligados a espionagem digital escreve um novo capítulo na história da espionagem.

O governo vem insistindo para armazenar mais dados na nuvem porque é muito mais fácil proteger informações nesse ambiente. (A Amazon detém o contrato para armazenar os dados da CIA na nuvem. Durante o governo Trump, a Microsoft ganhou uma vultosa licitação para subir os dados do Pentágono para a nuvem, apesar de o programa ter sido recentemente suspenso pelo governo Biden, em razão de uma longa disputa judicial sobre a maneira que o contrato foi concedido.)

Segundo reportagem publicada no Estadão, Christopher Krebs, que coordenou a Agência de Cibersegurança e Infraestrutura de Segurança do Departamento de Segurança Interna dos EUA até ser despedido pelo ex-presidente Donald Trump, no ano passado, quando declarou que a eleição de 2020 foi justa e não sofreu nenhuma fraude significativa: “Os russos estão à procura de um acesso sistêmico”, “Eles não querem ter de tentar invadir as contas uma a uma.” Essa demissão de Chirstopher Krebs lembra a demissão do presidente do IMPE, lá como cá se mata o carteiro quando a notícia é ruim.

Lembro que em resposta ao SolarWinds, a Casa Branca anunciou uma série de prazos para agências governamentais e todos os prestadores de serviço que trabalham para o governo federal aplicarem novas práticas de segurança que os tornaria alvos mais difíceis para hackers russos, chineses, iranianos e norte-coreanos. Essas práticas incluem passos básicos, como um método secundário de autenticação de quem acessa as contas, similar à maneira com que bancos ou empresas de cartão de crédito mandam códigos para celulares ou outros dispositivos para garantir que uma senha roubada não seja usada.

No cinema, James Bond, também conhecido pelo código 007, é um agente secreto fictício do serviço de espionagem britânico MI-6, criado pelo escritor Ian Fleming em 1953.

Na década seguinte, os livros viraram uma grande franquia no cinema, a mais duradora e bem sucedida financeiramente, com um total de vinte cinco filmes oficiais, até o último James Bond “e juro que não vou dar spoiler sobre o último filme, que é imperdível.

A transformação digital acelera à vontade e logo os serviços de espionagem ficam mais sofisticados e presentes.

Não precisa ser James Bond ou Putin, ou James Putin para entender a importância desse seguimento que movimenta bilhões. Agora tente imaginar quando eles invadirem os dispositivos de nossas casas, pela Internet da Coisas, ou nossos sonhos pelo Metaverso?

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